Magaliesburgo: um aportuguesamento recente - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Magaliesburgo: um aportuguesamento recente

No contexto do Campeonato Mundial de Futebol de 2010, a decorrer na África do Sul, a comunicação social portuguesa deu súbita proeminência a uma pequena cidade. Por um lado, porque é aí que se encontra alojada a selecção de Portugal. Por outro, porque a cidade, de seu nome Magaliesburg, em africânder e inglês, foi espontaneamente aportuguesada como Magaliesburgo. É de assinalar e saudar a rapidez com que — desta vez — televisões e jornais lusitanos tomaram a iniciativa de afeiçoar um nome estrangeiro aos padrões fonológicos e morfológicos da língua portuguesa.

Não obstante, tomando como pretexto este caso, vale a pena pensar um pouco no uso e na tradição das formas portuguesas de topónimos estrangeiros. A localidade assim chamada era até há pouco uma cidade pequena completamente desconhecida dos órgãos de comunicação de língua portuguesa. Este facto é tanto mais de frisar quanto a tradição de tais aportuguesamentos é eles afectarem principalmente a nomeação de cidades, dentro e fora da Europa, que se salientam ou pelo tamanho ou pelo prestígio: assim se transforma (ou se transformou) Hamburg em Hamburgo, Edinburgh em Edimburgo, Strasbourg ou Straßburg em Estrasburgo, exemplos de como –burg, –burgh ou -bourg passam regularmente a –burgo, que também se usa como unidade lexical autónoma, burgo. Indo até à África do Sul, vemos o mesmo a acontecer a Johannesburg, que corresponde a Joanesburgo. Acresce que, seja elemento de composição ou palavra independente, burgo está atestado em português desde o século XII, tendo surgido, por via do latim medieval burgus, i, “pequena fortaleza, povoado”, como empréstimo do germânico *burgs, “cidadela, cidade pequena, forte”, étimo, precisamente, das formas estrangeiras apontadas (cf. Dicionário Houaiss).

As formas vernáculas não se restringem, porém, a metrópoles em foco no passado ou no presente. É o caso da cidade francesa de Cherbourg, que é Cherburgo, como mostra a tradução do título do filme de Jacques Demy: de Les Parapluies de Cherbourg obtém-se portuguesmente Os Chapéus-de-Chuva de Cherburgo (com um toque lisboeta).1 Há também aportuguesamentos para localidades com menos projecção, pelo menos, na actualidade: Freiburg é Friburgo, forma que ressurge na brasileiríssima Nova Friburgo (Rio de Janeiro).

A simples observação sugere, portanto, que estes aportuguesamentos toponímicos se têm  generalizado quando as cidades assim nomeadas são tópico recorrente nas notícias de hoje ou nas crónicas de antanho. Se tal não acontece, o mais certo é não existir forma portuguesa; assim sucede, por exemplo, com Duisburg (Alemanha) e Pittsburg (Estados Unidos), nomes de cidades de apreciável dimensão, em contraste com a modéstia de Magaliesburg/Magaliesburgo. É claro que estes topónimos podem ser aportuguesados como "Duisburgo" e "Pitesburgo", de futuro por enquanto duvidoso, por se tratar de itens sem tradição, provavelmente em virtude de condicionalismos históricos exteriores às virtualidades do sistema morfológico do português.2

No tocante à pequena cidade sul-africana, é mais do que plausível a analogia com a configuração do substantivo próprio Joanesburgo — que substitui sem hesitação o nome anglo-africânder. Se Joannesburg devém Joanesburgo, então Magaliesburg transmuta-se em Magaliesburgo, generalizando-se o elemento –burgo a qualquer cidade, vila ou aldeia sul-africanas cujo nome termine em -burg. Mas que fazer com Magalies-?

Antes de responder à pergunta, convém saber que a estrutura morfológica do topónimo Magaliesburg é de origem germânica, visto o africânder, historicamente uma variante de neerlandês, fazer parte desse ramo das línguas indo-europeias. Muitos dos topónimos criados nas línguas germânicas (inglês, alemão, sueco, …) são compostos frequentemente constituídos por um nome comum ou próprio seguido da denominação do tipo de  aglomerado populacional ou de acidente geográfico; por exemplo, a cidade de Johannesburg significa à letra «o povoado de Johannes (nome próprio)», indiciando simultaneamente que o elemento que determina precede o elemento determinado, ao contrário do português e das restantes línguas românicas.3

Neste âmbito, o exemplo de Joanesburgo ajuda-nos a compreender melhor a estrutura de Magaliesburgo e os fenómenos ocorridos na sua adaptação ao português. Em Joanesburgo, o critério afigura-se simplesmente fonológico, sem preocupações morfológicas ou filológicas, sendo curioso verificar como o primeiro elemento do topónimo, Joanes-, é simples aportuguesamento fonológico de Johannes. A rigor, este constituinte do topónimo deveria corresponder a João ou, usando uma forma arcaica, Joane. Se nos demorássemos com este pormenor, a capital da África do Sul teria as formas “João-burgo”, “Joamburgo”4 ou “Joaneburgo”, e não Joanesburgo. Por outras palavras, se –burg se transpõe facilmente em português como –burgo, por força da etimologia e da tradição (revejam-se os exemplos atrás citados), já, relativamente ao primeiro elemento de certos topónimos de origem germânica, o critério é adaptar à pronúncia e à ortografia portuguesas sem preocupações filológicas.

De qualquer modo, reconheça-se que, a respeito de Magalies-, pouco se sabe: há quem diga que é deturpação do nome de um comerciante grego que se chamava Michaelis, mas são numerosos os defensores da tese segundo a qual se trata do nome de um chefe indígena, Mogale.5 O certo é que, mesmo em inglês, a palavra se pronuncia à africânder, com o g a soar como o jota espanhol, e ie pronunciado [i].6 Duas possibilidades se impõem então a quem fale o idioma de Camões:

a) ou lê Magalies- pronunciando-o à portuguesa, tendo por resultado “magálies” ou “magalies”;
b)  ou imita a pronúncia africânder do ie e diz “magalis”.

 

A primeira possibilidade não envolve alteração ortográfica, mas a segunda levanta problemas, pois, para ser consistente, também teria de incluir uma aproximação à consoante fricativa representada pelos gg africânderes de Magaliesburg-.7

Não querendo cair num impasse, e até porque o uso, mesmo que muito recente, deve ser tomado em conta, recomendo a possibilidade a), até porque a sequência Magalies- não me parece oferecer grandes dificuldades à leitura. E fico por aqui, porque já vai longa a minha visão de como Magaliesburg acabou por ser mais um –burgo da língua portuguesa.8

1 Em Portugal também se usa guarda-chuva, podendo alguns falantes sentir que chapéu-de-chuva é termo característico da capital portuguesa ou do Sul do País.

2 Em 24/07/2010, a cidade alemã de Duisburg foi notícia em Portugal por causa de um trágico acontecimento (uma multidão entrou em pânico na "Love Parade"). Alguns jornais portugueses (p.ex., o Jornal de Notícias) não hesitaram em adaptar -burg como burgo, assim criando a forma Duisburgo

3  Historicamente, há excepções em francês, por influência germânica: Strasbourg é topónimo de região que pertence à área dos dialectos alemães; Cherbourg tem origem escandinava.

4  Sugiro esta forma, com base em Sampetersburgo, forma recomendada por Rebelo Gonçalves (Vocabulário da Língua Portuguesa) em lugar de São Petersburgo.

5 A única fonte de que disponho é um artigo da Wikipedia em inglês sobre a cordilheira chamada Magaliesberg. Com certeza que a discussão à volta da etimologia de Magalies- preenche muitas páginas de investigação — às quais, infelizmente, não consegui ter acesso.

6  Agradeço ao jornalista da RTP António Mateus os esclarecimentos prestados sobre o nome da cidade de Magaliesburg.

7 Pode-se optar por manter os gg, obtendo-se “Magalisburgo”, à semelhança da transformação operada entre o neerlandês Groningen, onde essas letras também correspondem a uma fricativa, e o português Groninga, onde elas são lidas como oclusivas.

8 Assinale-se que a forma -burgo há muito que faz parte dos elementos de composição usados na formação de topónimos sem origem estrangeira, como é o caso do nome da terra natal de Guimarães Rosa: Cordisburgo (Minas Gerais, Brasil), constituído pela forma latina cordis, genitivo de cor, cordis, «coração» e -burgo (agradeço esta informação ao consulente Paulo Araújo, do Rio de Janeiro, Brasil).

Sobre o autor

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.