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Um discurso ignorante e retrógrado
Um discurso ignorante e retrógrado
Sobre a petição "Cidadãos contra o Acordo Ortográfico"

«(...) Resiste e reage à mudança um grupo ornamentado de nomes sonantes, mestres e aprendizes das galerias da fama, que valorizam o seu poder simbólico; defendem a superioridade conveniente dos seus hábitos de escrita; instigam o populismo fácil, e proclamam, como quem cumpre um glorioso dever, que «escrevem de acordo com a antiga ortografia». Se o não declarassem, ninguém se aperceberia de tão grande heroicidade. (...)»

 


O discurso da "petição de um grupo de cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990" é exagerado, fantasiado e, pior do que isso, é ignorante e retrógrado.

É ignorante porque desconhece princípios elementares das ciências da linguagem, ignora os critérios de economia, de simplificação e unificação da ortografia, desconsidera a dimensão sociocultural da língua, e os pressupostos da redundância comunicacional.

É retrógrado porque não consegue superar a inércia de hábitos de escrita injustificados; sobrestima uma peregrina informação etimológica, como se os portugueses escolarizados continuassem a estudar latim; impõe o uso desnecessário de acentos gráficos e de consoantes mudas, que empecilham a grafia, suscitam erros ortográficos, inibem o uso da escrita e promovem a insegurança linguística. A informação etimológica é muito interessante, mas é muito mais importante e urgente o uso desimpedido, alargado e eficaz da comunicação escrita.

O "movimento de cidadãos contra o Acordo Ortográfico" é um tropismo de adesão emocional, uma animação chique, intelectualoide, classista e reacionária. Os poetas e os intelectuais não têm problemas de escrita. No que à ortografia diz respeito são inimputáveis, mas dir-se-ia que alguns se julgam donos da língua. Têm saudades do tempo em que a qualidade da língua era aferida pelo número dos erros de ortografia.

O português falado e escrito tem que ser um lugar de bem-estar para todas as populações em Portugal, no Brasil e em toda a lusofonia. A língua não pode ser instrumento de privilégio para uma aristocracia intelectual desinformada e pouco generosa. Tem de ser de acesso fácil e simples para todos.

O Acordo Ortográfico está em aplicação, em Portugal, há mais de oito anos, nas escolas e em quase todos os meios da comunicação social, com geral acatamento. Não se conhecem reclamações do "povo povo", dos clubes desportivos (que leem muitos jornais), das bibliotecas públicas, das editoras, das associações regionais, das autarquias, dos professores em geral e particularmente dos linguistas. O apercebimento público da mudança ortográfica tem sido praticamente insensível.

Na realidade, o Acordo promoveu um pequeno e fácil ajustamento ortográfico, com pouca incidência no comportamento linguístico normal da comunidade. O Acordo não preocupa o povo que escreve e lê, nem incomoda os estudantes que têm aprendido a ler e a escrever com algumas vantagens.

A estatística da atualização ortográfica revela um atrito tão residual que não suscita qualquer perplexidade no trânsito quotidiano da escrita e da leitura.

Resiste e reage à mudança um grupo ornamentado de nomes sonantes, mestres e aprendizes das galerias da fama, que valorizam o seu poder simbólico; defendem a superioridade conveniente dos seus hábitos de escrita; instigam o populismo fácil, e proclamam, como quem cumpre um glorioso dever, que «escrevem de acordo com a antiga ortografia». Se o não declarassem, ninguém se aperceberia de tão grande heroicidade.

Exemplo eloquente: o escritor Miguel Sousa Tavares assinou um dos textos mais violentos contra o Acordo Ortográfico, no jornal Expresso do passado dia 11 de fevereiro. Nele invoca a pátria, a ciência, a superioridade moral dos escritores, como garantias contra a "estupidez", a "idiotia" e a "imbecilidade" do AO90, e termina proclamando coram populo, que «escreve de acordo com a antiga ortografia». Revendo as cerca de 1000 palavras, dessa longa catilinária, não descortinamos variantes da «antiga ortografia». Salva-se a pátria e a inteligência nesse texto, afinal perfeitamente escrito no AO90!

É ridícula e lamentável esta campanha que explora a exibição mediática, perturba a vida pública e ignora os valores da cidadania linguística e a opinião dos linguistas. E muito nos desalegra que se queira ver a Academia das Ciências embrulhada neste arraial de conservadorismo pobre e ignorante.

 N. E. (16/06/2017) – Com um pedido de desculpas, registe-se que se escreveu no título "retrógado" em vez de retrógrado, que é a grafia correta, como se pode verificar no corpo do texto. Foi feita a devida emenda.

Sobre os Autores

Filólogo português, professor catedrático (jubilado) da Faculdade de Letras de Lisboa. membro efetivo da Academia das Ciências de Lisboa, em representação da qual fez parte da delegação portuguesa ao Encontro de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, realizado na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em 1986, em cujos trabalhos conduziram ao Anteprojeto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa, em 1988, e, depois, ao Acordo Ortográfico de 1990, firmado nesse ano, em Lisboa. Entre outras obras, coordenou a versão portuguesa do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e, como coordenador científico, do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (ed. Verbo, 2001) e do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (ed. Porto Editora, 2009). Sobre o autor, a sua obra e outras intervenções ver mais aqui e aqui.

Doutorado pela Universidade de Aveiro e professor catedrático na área da linguística nesta mesma instituição. São da sua autoria as seguintes publicações: As Palavras e as Ideias na Revolução Liberal de 1820 (1981), As origens da gramaticografia e da lexicografia latino-portuguesas (1995), entre outras.