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O nosso idioma // Expressões idiomáticas

Expressões com história

Ecos linguísticos que se desvanecem

Há períodos históricos que marcam profundamente um povo, quer pelas mudanças que operam na sua organização política e social, quer pela herança cultural que deixam. As décadas de 1920 e 1930, em Portugal, foram um desses momentos atribulados. Na sequência da instabilidade da Primeira República, marcada por sucessivas crises governativas, golpes e tensões sociais, o país acabaria por entrar na Ditadura Militar em 1926, abrindo caminho à instauração do Estado Novo sob a liderança do ditador António de Oliveira Salazar, a partir de 1933. Simultaneamente, vivia-se um tempo de efervescência cultural, com o Teatro de Revista, as tertúlias literárias nos cafés lisboetas e os primeiros serões radiofónicos a assumirem um papel central no quotidiano urbano.

Como frequentemente acontece, a língua não ficou alheia a este contexto. As expressões idiomáticas, esses modos de dizer cujo significado ultrapassa a soma das palavras que as compõem, refletem, muitas vezes, experiências históricas, práticas sociais e formas de estar. Não surpreende, por isso, que várias expressões ainda hoje frequentemente usadas, embora anteriores a este período, possam nele ganhar particular saliência, ser reativadas ou adquirir novas leituras à luz das circunstâncias da época.

Uma dessas expressões é «isto vai ser um 31», ainda amplamente usada para antecipar confusão ou uma situação complicada. A sua origem remonta ao levantamento de 31 de janeiro de 1891, no Porto, um episódio de revolta republicana que acabou por ficar associado à desordem e tumulto. Num país que, nas décadas seguintes, atravessou sucessivas crises políticas, a expressão ganhou novo fôlego e consolidou-se no uso corrente, desligando-se progressivamente do episódio histórico concreto para passar a designar qualquer circunstância caótica.

Outro exemplo é «fazer vista grossa», expressão que significa fingir não ver algo reprovável ou ignorar deliberadamente um erro. Numa sociedade onde coexistiam práticas burocráticas rígidas com situações de conivência ou tolerância prática, esta formulação foi ganhando terreno como forma de descrever atitudes de complacência, quer no plano institucional, quer no quotidiano.

Do registo mais popular e urbano surge «fazer gato-sapato», expressão usada para indicar que alguém domina ou manipula completamente outra pessoa, muitas vezes de forma abusiva. A sua difusão parece ligada ao ambiente das cidades em crescimento, onde as desigualdades sociais e as relações de poder geravam imagens linguísticas marcadas e expressivas, facilmente apreendidas e repetidas pelos falantes.

No universo da gíria de rua, encontramos ainda «levar a bicicleta», hoje menos frequente, mas bastante usual noutras épocas, sobretudo entre vendedores ambulantes e ardinas. A expressão designava a situação de ser enganado ou ludibriado num negócio. A escolha da «bicicleta» como imagem metafórica poderá associar-se à ideia de rapidez e de circulação constante, características tanto do objeto como das dinâmicas do pequeno comércio urbano.

Já «estar com os azeites», ainda hoje bem viva no português europeu, refere-se a alguém que se encontra irritado ou de mau humor. A expressão parece ter raízes no mundo rural, onde o azeite, produto essencial da economia doméstica, exigia cuidados de conservação e podia facilmente deteriorar-se, gerando transtornos. A metáfora transfere essa ideia de instabilidade ou de “má condição” para o estado emocional de uma pessoa.

Em síntese, estes exemplos mostram como a língua funciona como um verdadeiro arquivo da experiência coletiva. Mesmo quando o contexto histórico que lhes deu origem se esbate ou se torna distante, as expressões permanecem, reinventando-se e adaptando-se a novos usos. Assim, ao utilizarmos estas fórmulas no nosso quotidiano, estamos a evocar, muitas vezes sem disso termos consciência, fragmentos de um passado que continua a viver nas palavras.

Na imagem, a revolta do Porto de 31 de janeiro de 1891. Créditos da imagem: Tinayre, Louis, 1861-1941 - Biblioteca Digital Nacional. Disponível em wikipédia.

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