Os derivados de Óscar, uma cedilha intrusa e pontes galego-portuguesas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Os derivados de Óscar, uma cedilha intrusa e pontes galego-portuguesas
Os derivados de Óscar, uma cedilha intrusa e pontes galego-portuguesas
Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa 882

1. Há palavras apenas ou mais usadas em certas épocas do ano, a marcar certos eventos. Por exemplo, em fevereiro, além dos ruidosos festejos do Carnaval, multiplicam-se as notícias sobre a atribuição dos Óscares da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – em 2017, a cerimónia realiza-se em 26 de fevereiro – e, com elas, ouve-se e lê-se novamente, aqui e ali, o verbo oscarizar e o seu particípio passado, oscarizado, usado adjetivalmente – «o ator oscarizado», «a atriz oscarizada». Será este um uso correto? Sim, porque se trata de um derivado de Óscar, bem formado e com um significado que é compatível com a semântica dos seus constituintes. Diga-se também que oscarizado ainda não generalizou nos dicionários, mas começa a ter aparições: pro exemplo, no Vocabulário Ortográfico do Português. Contam-se, além disso, o derivado oscarizável e o nome comum óscar, «avaliação de uma obra realizada em determinado domínio (arte em geral, ciência etc.) como excepcional e premiável» (Dicionário Houaiss), como conversão do nome próprio Óscar, que corresponde ao inglês Oscar. Por fim, o plural de óscar é óscares, e não "oscars" como às vezes se lê – cf. resposta de João Carreira Bom (28/3/2000) e apontamento de Sara Mourato no Pelourinho (ler mais abaixo).

2. Outro verbo com o sufixo -izar, muito produtivo, mas nem sempre com resultados que inspirem confiança. Por isso, uma pergunta: o verbo empatizar estará bem formado? O seu uso é aceitável? Com perífrases verbais («pode falar»), onde se coloca o pronome pessoal átono? Ou seja, o que é melhor: «pode falar-se», ou «pode-se falar»? Por último, diz-se «estudar português», ou «estudar o português»? As respostas no consultório.

3. No Pelourinho, além da grafia já aportuguesado do nome Óscares, Sara Mourato surpreende uma cedilha intrusa na escrita de uma forma verbal que a dispensa: conhece.

4. Reforça-se a consciência de que o bilinguismo tem enormes vantagens cognitivas, mas para o êxito é necessário o envolvimento afetivo dos falantes. Uma peça do Diário Notícias (24/2/2017) mostra que, como em tudo na vida, a aprendizagem de uma língua estrangeira é também facilitada pela intimidade.

5. Virando a atenção para o que se passa a norte de Portugal, para lá do rio Minho:

– É de assinalar que em 21 de fevereiro p. p. – Dia Internacional da Língua Materna – foi lançado o documentário Porta para o Exterior, que Sabela Fernández e José Ramom Pichel realizaram. É um filme que, por um lado, suscita preocupação pelo futuro do galego, que perde falantes de forma vertiginosa, segundo dados de 2013; por outro, na perspetiva do reintegracionismo, defende uma mudança de atitude, que conceba a língua da Galiza não como uma relíquia medieval mas como uma ponte para o mundo que fala português.

– Registe-se ainda aqui a publicação de Ortografia Galega Moderna – Confluente com o Português no Mundo, uma obra coordenada por Eduardo Maragoto e Joseph Ghanime, na qual «se descreve todos os usos gráficos reintegracionistas» e se propõe «dar resposta às dúvidas ortográficas e morfológicas que a gente da Galiza encontra». Lembramos que o reintegracionismo é uma corrente que na Galiza advoga a convergência do galego com o português em vários níveis, designadamente na ortografia.

6. Em foco nos programas produzidos pelo Ciberdúvidas para a rádio pública portuguesa, a proposta de aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico que a Academia das Ciências de Lisboa (ACL) viu rejeitada pelo parlamento e pelo governo de Portugal. O Língua de Todos de sexta-feira, 24 de fevereiro (às 13h15*, na RDP África, com repetição no sábado, 25 de fevereiro, depois do noticiário das 9h00*), ouve o linguista Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, que critica esta iniciativa unilateral. No Páginas de Português de domingo, 26 de fevereiro (na Antena 2, às 12h30*, com repetição no sábado seguinte, às 15h30*), o presidente da ACL, Artur Anselmo, explica quais as razões da iniciativa e quais as alterações sugeridas, que lhe valeram críticas contundentes dos académicos João Malaca Casteleiro, Rolf Kemmler e Telmo Verdelho

* Hora oficial de Portugal continental.