O anglicismo Mayexit, a padronização da toponímia, as proparoxítonas e o Festival de Cannes (também) em português - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O anglicismo Mayexit, a padronização da toponímia, as proparoxítonas e o Festival de Cannes (também) em português
O anglicismo Mayexit, a padronização da toponímia,
as proparoxítonas e o Festival de Cannes (também) em português
Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa 242

1. Quando se caracteriza a ordem de palavras do português, costuma falar-se na ordem SVO, que é o mesmo que dizer que numa frase da nossa língua aparece primeiro o sujeito, depois o verbo e, eventualmente, os seus complementos e modificadores: «Ela apresentou a sua demissão na sexta-feira». Contudo, nem sempre é assim, pois sabemos que a inversão do sujeito é frequente nas interrogações – «Apresentou ela a sua demissão na sexta-feira?» – e até em certas declarações, como se pode confirmar no consultório, numa nova resposta que sistematiza os casos de sujeito pós-verbal. Nesta atualização, podemos ainda compreender o uso contrastivo de sim, tal como ocorre no seguinte exemplo: «Ela demitiu-se não na quinta-feira, mas, sim, na sexta.» Já agora, a propósito de demissões e da conturbada saída do Reino Unido da União Europeia, uma outra resposta alude à da primeira-ministra britânica Theresa May em 24/05/2019, cuja saída depressa ficou conhecida como Mayexit (literalmente, «saída de May»), mais uma formação neológica anglo-saxónica de que os media em português se apropriaram. E, acumulando-se as nuvens no horizonte europeu, comenta-se a etimologia de nuvem e neblina.

Na imagem, Theresa May entra no n.º 10 de Downing Street em Londres, após o discurso em que anunciou a sua demissão (foto extraída do vídeo difundido pelo canal da Deutsche Welle News no Youtube).

2. Na rubrica O nosso idioma, transcreve-se um artigo que vai ao encontro de dúvidas levantadas pela escrita de topónimos: como estabilizar, por exemplo, a adaptação do nome geopolítico Sri Lanka ao português? Ou como evitar a excessiva variação na grafia de tantos topónimos da Angola, de Moçambique ou da Guiné-Bissau? Não basta o conhecimento da língua, é também preciso consenso e intervenção institucional ao nível internacional, num processo em que Portugal não tem estado nada ativo, como revela de modo muito crítico a linguista Margarita Correia, investigadora do CELGA-ILTEC (Universidade de Coimbra) no texto que assinou em 25/05/2019 no Diário de Notícias.

3. Continuando a comentar questões normativas do português, é tópico mais pacífico o da ortografia das palavras esdrúxulas, isto é, das proparoxítonas – por exemplo, pacífico, tópico, ou até toponímia. De tal maneira, que é caso para um texto se intitular "Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto", como faz o arquiteto e escritor brasileiro Eduardo Affonso  na edição digital do Jornal da Cidade (artigo publicado em 25/05/2018).

4. Entre notícias sobre a aprendizagem da língua portuguesa como objeto de estudo, saliente-se a 12.ª edição da International Association for Research in L1 Education (ARLE – Associação Internacional para a Investigação em Ensino de L1), que, em 2019, tem organização do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa (UNL) e decorre de 24 a 28 de junho nas instalações da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, também da UNL. Este evento, que conta com a presença de linguistas de renome internacional (ver a lista de conferencistas convidados), dedica neste ano especial atenção às questões do ensino-aprendizagem do português como língua materna (ler Notícias; mais informações aqui).

5. Duas últimas notas com atualidade:

– uma sobre a notícia publicada pelo jornal digital Plataforma em 24/05/2019, registando as debilidades da Clínica Tyanyou China & Angola Hospital, em Huíla, Angola, entre elas, a de um médico chinês precisar de recorrer à tradução por telemóvel, do mandarim para o português, para atender os seus pacientes;

– outra sobre o Festival de Cannes, que, na edição de 2019 da sua secção paralela Un certain regard (Um certo olhar), premiou um filme em língua portuguesa,  A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, realizado por Karim Aïnouz. Também um filme rodado na Galiza ganhou o prémio do júri de Un certain regard:  trata-se de O que arde, do realizador franco-galego Oliver Laxe, que conseguiu o facto notável de, pela primeira vez, uma obra cinematográfica falada em galego ter vencido um certame em Cannes.