Uma oração proporcional adverbial num texto de Machado de Assis - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Uma oração proporcional adverbial num texto de Machado de Assis

«Mas, se tudo isso era espantoso, não menos o era a luz, que não vinha de parte nenhuma, porque os lustres e castiçais estavam todos apagados; era como um luar, que ali penetrasse, sem que os olhos pudessem ver a lua; comparação tanto mais exata quanto que, se fosse realmente luar, teria deixado alguns lugares escuros, como ali acontecia, e foi num desses recantos que me refugiei.»

O trecho acima foi pinçado do extraordinário conto "Entre Santos", do não menos extraordinário Machado de Assis (1839-1908).

O período todo proporcionaria uma alentada aula de sintaxe, mas me atenho somente à oração «quanto que teria deixado lugares escuros». Como analisá-la sintaticamente?

Muito obrigado.

Fernando Bueno Engenheiro Belo Horizonte, Brasil 42

O enunciado apresentado é caracterizado por alguma densidade que dificulta o seu processamento. Não obstante, julgamos «quanto que teria deixado alguns lugares escuros» constitui uma oração adverbial proporcional. Estas orações caracterizam-se por serem construções onde se «confrontam graus de intensidade de duas propriedades […] ou quantidade de duas entidades referidas» (Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa. Caminho, pp. 765-766). 

Estas construções podem ser introduzidas por conjunções / locuções conjuncionais correlativas, tais como quanto mais… (tanto) mais, quanto mais… (tanto) menos, tanto mais... quanto mais, tanto mais... quanto menos, tanto menos... quanto mais1 

No caso em análise, o narrador avalia a justeza da comparação que acabou de construir («era como o luar que ali penetrasse»). Para tal, estabelece uma relação de proporção entre o “grau” da exatidão da comparação e a “quantidade” de lugares escuros deixados pelo luar, o que lhe permite inferir que, como o luar deixaria certamente lugares escuros no espaço, então a comparação que acabou de ser apresentada é muito rigorosa (ou muito «exata»).

É de referir ainda que Machado de Assis introduz a oração proporcional com construção «quanto que», que não será tida como correta. No entanto, o autor utiliza esta construção noutras situações, como se observa em (1):

(1) «... não encarava Estácio e D. Úrsula, sem que o pejo lhe colorisse a face, mudança tanto mais visível quanto que a vigília e a dor a tinham empalidecido muito.» (Machado de Assis, Helena)

Poderemos, neste caso, estar tanto perante uma construção idiossincrática como face a uma construção mais generalizada. Não temos, contudo, elementos para o aferir neste espaço. 

 

Disponha sempre!

 

1. Bechara, Moderna gramática portuguesa. Nova Fronteira, p. 412.

Carla Marques
Classe de Palavras: locução
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto; Sintaxe Campos Linguísticos: Orações