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«Tem melhorado» vs. «tem vindo a melhorar»

Tenho notado que é comum em textos portugueses a construção «tem vindo a» + infinitivo para designar ações iniciadas no passado e que chegam ao presente, como na frase «o desempenho do Pedro na escola tem vindo a melhorar nos últimos meses». Posso estar enganado, e talvez uma consulta aos corpora das duas variantes mo esclareça, mas me parece que não se usa tal construção no Brasil: eu diria e escreveria, sempre, «o desempenho do Pedro na escola tem melhorado nos últimos meses». Como ambas as construções se usam em Portugal, gostaria de saber se há diferença semântica entre elas ou se se equivalem, e, caso se equivalham, qual delas é mais antiga na língua.

Rodrigo Vasconcelos Advogado Belo Horizonte, Brasil 829

A perífrase formada por «vir a » + infinitivo ocorre com frequência significativa no português de Portugal. O mesmo não se pode afirmar acerca do português do Brasil, como bem observa o consulente.

A perífrase verbal «vir a» + infinitivo é frequente no português de Portugal, tendo especial  relevo a sua ocorrência no pretérito perfeito do indicativo:

1. O desempenho dele veio a melhorar mais tarde.

A leitura que se faz desta construção é quase semelhante à do pretérito perfeito do indicativo do verbo principal («melhorou mais tarde»), mas junta muitas vezes um matiz concessivo, próximo do «acabar por» + infinitivo:

2. (apesar de tudo) o desempenho veio a/acabou por melhorar.

O pretérito perfeito composto da perífrase em causa – «tem vindo a melhorar» – é mais uma possibilidade, que junta o referido matiz ao pretérito perfeito composto do verbo principal.

Fazendo uma consulta ao Corpus do Português (de Mark Davies), depressa se conclui que tem fundamento a impressão descrita pelo consulente. Com efeito, são escassas, para não dizer nulas, as ocorrências de «vir a» + infinitivo no pretérito perfeito composto do indicativo que provenham de textos identificados como brasileiros. Os textos recentes não facultam exemplos, a não ser num caso, em que a ocorrência de «tem vindo a» + infinitivo provém afinal da citação de um texto de autor português. Os textos brasileiros mais antigos – do século XIX às primeiras décadas do século XX – praticamente se pautam pela mesma ausência; salienta-se um único exemplo:

3. «É claro que depois disso, convivências e tantas outras leituras vieram que foram atuando e têm vindo a atuar mesmo até hoje na minha formação.» (João do Rio, O Momento Literário, 1907 in Corpus do Português).

Sem pretender chegar a grandes conclusões, porque estes dados carecem de um estudo mais alargado, é mesmo assim possível concluir que a construção em causa, no pretérito perfeito composto do indicativo, prima por ser pouco ou nada frequente no português do Brasil. A observação do uso de «vir a» + infinitivo no pretérito perfeito do indicativo revela ainda que esta construção figura com várias ocorrências nos textos brasileiros, mas não na abundância que se encontra entre textos de Portugal.

Quanto à antiguidade desta perífrase, a fonte consultada é inconclusiva, porque as ocorrências identificadas de «vir a» + infinitivo se concentram em textos do século XX. Será que esta perífrase é uma criação tardia do português de Portugal? Será que o exemplo brasileiro transcrito em 3 é reflexo brasileiro da gramática lusitana? Como já se disse, impõe-se um estudo aprofundado da distribuição desta perífrase no espaço e no tempo, o qual não pode caber nas dimensões de uma resposta como esta.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo
Áreas Linguísticas: Gramática; Morfologia Flexional; Semântica Campos Linguísticos: Tempo/Modo/Pessoa/Número (verbos)