Sobre a aceitabilidade das pronúncias regionais (Portugal) - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Sobre a aceitabilidade das pronúncias regionais (Portugal)

Sendo de Castelo Branco, ao mudar-me para Évora, fui "criticado" por uma maneira minha de falar que passarei a explicar. Se eu falar lentamente, direi: «A água está quente», p. ex. na oralidade formal. Porém, ao falar numa corrente familiar e com amigos, ao falar mais rapidamente, para tornar a frase menos complicada de dizer (inconscientemente...), direi algo do género: «Aiágua xtá quente.»

Erro ao tornar inconscientemente a frase mais simples de dizer?

Ou, cada vez que falo informalmente, tenho de "silabar" cada palavra da

frase?

Para terminar, gostaria de saber se é correcto que um professor exija que eu diga «Eu vi ú cão» (em vez de «eu vi o cão»), "Hugo" (em vez de "Hugo") e "coalho" em vez de "coelho".

Desde já obrigado e parabéns pelo magnifico estado deste site.

Hugo Gonçalves Estudante universitário de Teatro Évora, Portugal 6K

Actualmente, há uma maior tolerância para com as pronúncias regionais, mesmo no registo formal. Não acho, por isso, haver erro na inserção (ou epêntese) de um "i" entre uma palavra terminada por "-a" e outra começada por um "a-" (aberto ou fechado) tónico em sequências como «a água» (=«a-i-água») ou «a Ana» (=«a-i-Ana»); trata-se de um processo característico dos dialectos setentrionais do português europeu. Em Évora, certamente se observarão traços dialectais na pronúncia local: por exemplo, a tendência para monotongar o "ei" medial de maneira ("manêra") ou o ão de não antes de outra palavra («nã sei»).

Quanto às pronúncias apontadas pelo consulente, nas duas primeiras, tal como estão descritas, não se percebe a diferença. No entanto, a terceira, "coalho", é por certo a pronúncia da palavra coelho no dialecto de Lisboa, a qual se representa figuradamente e com maior adequação por "coâlho" (transcrição fonética: [ku`ɐʎu]), com o chamado «á fechado». Visto que o consulente é estudante de Teatro, admito que lhe seja necessário muitas vezes adaptar-se à pronúncia-padrão do português europeu, que, quer se goste, quer não, absorveu muitos traços dialectais da capital — por exemplo, a pronúncia "â" ([ɐ]) da letra e antes de consoantes pré-palatais (veja, fecha) e palatais (espelho, venho).

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma