Ainda a pronúncia do Porto e a de Lisboa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Ainda a pronúncia do Porto e a de Lisboa

Uma vez que nós, portuenses, somos criticados por deficiente pronúncia, gostava do vosso comentário ao seguinte. Em Lisboa, segundo julgo saber, pronunciam da mesma forma rio (ex. «eu rio») e riu (ex. «ele riu»). Parece-me um erro grave, uma vez que iu é um ditongo, o mesmo não acontecendo a io. Com efeito, na minha opinião, rio é um dissílabo e dessa forma deve ser pronunciado. Quanto à palavra sexto, que em Lisboa é pronunciada "sesto", é outro erro, uma vez que a pronúncia correcta deve ser "seisto". Há uma outra dúvida, mas que não considero erro. É o facto de diversas palavras que em Lisboa são pronunciadas fechadas e no Porto abertas e vice-versa. Ex. O diminutivo de copo que pronunciamos no Porto com o "ó" aberto e que em Lisboa pronunciam como um "u" ("cupinho").

Rui Magro Bancário reformado Porto, Portugal 7K

1. O português europeu identifica-se com o português falado na região compreendida entre Coimbra e Lisboa: é a norma-padrão. A norma-padrão do português é um referencial linguístico, é a língua que se ensina nas escolas a alunos que têm o português como língua materna e a alunos que têm o português como língua estrangeira; é a que é alvo de descrição nas gramáticas, nos prontuários e nos dicionários.

Porque é que a língua-padrão corresponde ao modo de falar da região Coimbra — Lisboa e não ao modo de falar do Alentejo, Porto ou Beiras? Por decisão institucional.

O que decorre daqui é que o falar de Coimbra — Lisboa é tomado como sendo mais prestigiante em relação a outros modos de falar, ou outras variedades regionais, ignorando-se que o português que se fala nessa região é, afinal, também, uma variedade regional. O [s] beirão, o [õ] (pelo ditongo nasal) do Porto, o [e] (pelo ditongo ɐj], em "lête"— "leite") do Alentejo são usos muitas vezes depreciados socialmente. São erros? Não, são marcas de variações regionais de ordem fonológica. Tal como não é erro dizer anho em vez de cordeiro, ou à minha beira em vez de ao pé de mim (variação regional de ordem lexical e variação de ordem lexical e morfossintáctica, respectivamente).

Regressando à questão da pronúncia: considera-se, então, que todos os modos de pronunciar são equivalentes? Não. Por exemplo, a crescente tendência para pronunciar amámos da mesma forma que amamos não é funcional — e, apesar disso, anda na boca de falantes do Norte, do Centro e do Sul, do Porto e de Lisboa. O diferendo entre a articulação em amámos, com [a], vogal aberta, e a articulação em amamos, com [ɐ], vogal semifechada, marca que estamos no pretérito perfeito ou no presente do indicativo. Por outras palavras, há uma oposição no som que corresponde a uma oposição de significado. Contrariamente, para efeitos do apuramento do valor distintivo dos sons, tanto faz que digamos que um cão é [kɐ̃w], como que um cão é [].

2. Devemos distinguir entre variação regional e variação social: dizemos que a norma padrão corresponde ao falar da região Coimbra-Lisboa, o que não quer dizer que em Lisboa toda a gente fale do mesmo modo. Veja-se o chamado "falar das tias", que é uma variação social. Cumulativamente, também se verifica, no universo de falantes residentes em Lisboa, as pronúncias [seʃtu] ("sesto") e [sɐjʃtu] ("seisto") — com prejuízo para o valor distintivo dos sons implicados. De facto, ao dizer [seʃtu], tanto podemos estar a considerar cesto como sexto.

3. A fundamentação ortográfica com que o consulente sustenta o argumento de que em rio (curso de água) há hiato e de que em riu (verbo) há ditongo não tem validade. Há hiato sempre que o [i] ou [u] é tónico: há hiato em frio, tio, mas também em triunfo e ciúme; o topónimo Diu, que se pronuncia monossilabicamente, já teve a grafia Dio.

4. Há uma regra fonológica — chamada "regra do vocalismo átono" — que explica a realização de copocopinho em [kɔpu] — [kupiɲu]. Mas, como disse no ponto 1, trata-se de uma descrição, e não de uma prescrição, de um fenómeno| verificado na norma-padrão.

Ana Martins
Áreas Linguísticas: Fonética; Ortografia/Pontuação