Prefixos e radicais (DT) - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Prefixos e radicais (DT)

Com a nova terminologia surgem algumas dúvidas, nomeadamente na formação de palavras.

Algumas gramáticas indicam determinadas palavras como formadas por composição morfológica, outras indicam as mesmas palavras como derivadas por prefixação.

Assim, por exemplo, as palavras bicicleta e bisavô aparecem como sendo formadas por composição morfológica, e a palavra filosofia como derivada por prefixação, sendo bi e bis apontados como radical de origem grega, e filo apontado como prefixo. Outras gramáticas referem que as três palavras são formadas por composição morfológica, porque os três são radicais.

Agradecia que me esclarecessem sobre este assunto.

Jorge da Cunha Professor Arruda dos Vinhos, Portugal 16K

O Dicionário Terminológico (DT) caracteriza radical e prefixo do seguinte modo:

a) o radical é um constituinte morfológico pertencente a uma categoria sintática, falando-se, por isso, de radical adjetival, radical adverbial, radical nominal, radical verbal;

b) o prefixo é um afixo que se associa à esquerda de uma forma de base, entendendo-se por afixo «[o] constituinte que ocorre obrigatoriamente associado a uma forma de base».

Contudo, é verdade que nem sempre é possível distinguir claramente prefixos de radicais, o que explica por vezes certas divergências entre gramáticas escolares. Nos casos apresentados, o problema não se põe em relação a bicicleta e bisavô, uma vez que o elemento bi(s)- (que tem origem latina, e não grega) reúne consenso quanto a ser classificado como prefixo (ver Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, Dicionário Houaiss e iDicionário Aulete). Observe-se, no entanto, a afirmação de bicicleta como um derivado por prefixação é fugir à história da palavra, que surgiu em português por adaptação da francesa biciclette, esta, sim, criada a partir de vários elementos, autónomos e não autónomos: «bi- "dois" + cycle "roda" (< gr. kúklos "círculo") + suf[ixo] dim[inutivo] -ette» (Dicionário Houaiss).

Quanto a filosofia, as análises propostas dividem-se efetivamente quanto à classificação de filo- (do grego gr[ego] phílos, é, on, "amigo, querido, queredor", Dicionário Houaiss), porque este elemento pode ser encarado como pseudoprefixo, isto é, como um um radical que passou a usar-se como prefixo (à semelhança de auto-, que, significando «mesmo, próprio», passou também a aludir à noção de automóvel: autoestrada). É por isso que, ao lado de filosofia, que apresenta dois radicais de origem grega (filo- e -sofia), temos criações mais recentes em que filo- se tornou produtivo como prefixo associado a palavras de outras origens. Aliás, a propósito de filo-, o Dicionário Houaiss aponta que «a fecundidade deste antepositivo é tal, que se presta à form[ção] de pal[avras] virtuais ad hoc, como filobrasileiro, filossambista, etc.»

De qualquer modo, não perfilho a análise de filosofia como derivado por prefixação, até porque sofia, não existindo como palavra autónoma em português, também não é base de derivação; é antes um elemento de composição, tal como se descreve, por exemplo, no Dicionário Houaiss. Por isso, classifico filo- como radical e filosofia como composto morfológico — muito embora se trate historicamente de um empréstimo latino de origem grega.

 

Carlos Rocha
Classe de Palavras: substantivo
Campos Linguísticos: Composição