A gramaticografia tradicional brasileira não responde explicitamente às dúvidas levantadas pela consulente, o que (claro) não nos impede de formular uma resposta satisfatória a partir das ponderações sobre a teoria e a metalinguagem fornecida pelos gramáticos tradicionais.
Em frases com predicado nominal (ex.: «A internet é de Carlos»), o núcleo desse tipo de predicado é um nome, ou seja, o predicado nominal não existe sem um núcleo dessa natureza que o integre, de modo que o predicativo do sujeito é um termo integrante da oração nesse contexto. Assim como em «João empurrou» a frase precisa de um termo que integre o predicado, tornando-a completa, como em «João empurrou a porta», o mesmo ocorre com «A internet é», que, para estar completa, precisa de um termo que integre o predicado, como em «A internet é de Carlos».
Por outro lado, se o predicativo do sujeito constitui um predicado verbonominal, os gramáticos (como Evanildo Bechara) dizem que há uma condensação de dois predicados, constituindo um só. Por exemplo, em «João levantou feliz», temos embutido em si «João levantou» e «João estava feliz». Mesmo assim, entendo que o predicativo do sujeito é acessório, pois um termo integrante é aquele que torna pleno a construção sintática da frase e o seu sentido, o que não se dá obrigatoriamente com «João levantou feliz», que pode ser escrito sem o predicativo: «João levantou.» Obviamente o sentido não é o mesmo; no entanto, sintaticamente, o termo «feliz» é dispensável para a completude sintática da frase, o que o torna – nesse contexto – um termo acessório da oração.
Já o predicativo do objeto pode ser um termo acessório ou integrante da oração. É acessório quando sua inexistência não prejudica a plena formação sintática de uma frase, como em «Descartaram o livro rasgado» (o sentido desta frase é este: o livro estava rasgado quando o descartaram), que pode estar plena sintaticamente sem o predicativo: «Descartaram o livro.» É integrante quando o verbo o exige – neste caso, os gramáticos classificam esse tipo de verbo como transitivo-predicativo ou transobjetivo, isto é, verbos que, pela sua própria natureza semântica, exigem um complemento verbal e um complemento predicativo: «Consideramos aqueles alunos inteligentes.» Esta mesma análise se aplica a «O juiz julgou o réu inocente».
Quanto à distinção entre predicativo do objeto e adjunto adnominal, partindo da frase «Ana ganhou um livro antigo ontem», é simples: use o critério da clivagem por meio da expressão ser + que. Qual frase lhe parece natural, existente na língua portuguesa?
I. Foi um livro que Ana ganhou antigo ontem.
II. Foi um livro antigo que Ana ganhou ontem.
Penso que a consulente responderá ser a segunda frase. Se «antigo» não pode ficar separado de «o livro», é um adjunto adnominal, e não um predicativo do objeto.
Sempre às ordens!