DÚVIDAS

Passiva sintética em locuções verbais com preposição intermédia

É possível a transposição da voz passiva analítica para sintética em locuções verbais com preposição intermediária?

Isso pode ser feito em locuções verbais sem preposição intermedária, contanto que o verbo + se não forme um outro, em que essa partícula seja integrante dele; consequentemente, é possível rescreever «Os deveres devem ser feitos» como «Os deveres devem fazer-se», e então como «Os deveres devem-se fazer», mas não «Eles devem ser amados» como «Eles devem amar-se», uma vez que o sentido se altera.

Logo, minha dúvida é se existe essa possibilidade para locuções verbais como «ter de ser feito» e «gostar de ser bonificado», exemplificadas em «Os deveres têm de ser feitos até amanhã» e «Os alunos gostam de ser bonificados», mesmo que sem merecimento; ou seja, é possível reescrever a primeira oração como «Os deveres têm de se fazer até amanhã» (ou «Os deveres têm de se fazerem até amanhã»)? e a segunda como «Os alunos gostam de se bonificar, mesmo que sem merecimento» (ou «Os alunos gostam de se bonificarem, mesmo que sem merecimento»)?

Agradeço a atenção.

Resposta

Sim, é possível transpor da passiva analítica para a passiva sintética* a primeira oração trazida pelo consulente, mas a segunda é bem mais problemática.

Antes, porém, é preciso saber que «ter de fazer» é uma locução verbal, por isso o verbo principal não varia no plural.

- Voz passiva analítica: «Os deveres têm de ser feitos até amanhã.»

- Voz passiva sintética: «Têm de se fazer os deveres até amanhã.»

Agora, a forma proposta pelo consulente, em que o sujeito paciente se desloca para o início da oração («Os deveres têm de se fazer até amanhã»), é possível e gramatical, mas pouco natural em estruturas de voz passiva sintética, pois esse deslocamento costuma ensejar uma possível leitura equivocada da função do se (que passa de apassivador a reflexivo), como se os deveres tivessem o poder de resolver a si próprios – o que certamente é uma interpretação absurda.

Já em «gostar de bonificar» não há locução verbal, pois o verbo gostar não é auxiliar. Se um se figurar junto a bonificar, torna-se reflexivo, pois o sentido assim o exige: «Os alunos gostam de se bonificar» forçosamente significa que eles gostam de bonificar a si próprios. A forma passiva analítica em «Os alunos gostam de ser bonificados», em tese, possibilitaria uma transposição para a voz passiva sintética. Contudo, ao transpormos, o sentido da frase se altera em comparação com a forma passiva analítica: em «Os alunos gostam de se bonificarem», o se já não é apassivador, e sim reflexivo ou reflexivo recíproco. Desse modo, parece que a única forma de manter o sentido original de «Os alunos gostam de ser bonificados» seria a forma desenvolvida da oração, o que implica ter o seu equivalente original não em forma reduzida, mas também em forma desenvolvida, a saber:

- Voz ativa: «Os alunos gostam (de) que os bonifiquem.» (Aqui a leitura de que o oblíquo os toma por referente «os alunos» é completamente possível e coerente.)

- Voz passiva analítica: «Os alunos gostam (de) que sejam bonificados.» (Aqui a leitura de que o sujeito da locução verbal é «eles» [«os alunos»] é completamente possível e coerente.)

- Voz passiva sintética: «Os alunos gostam (de) que se bonifiquem eles.» (Aqui a leitura de que o pronome reto eles é sujeito paciente é completamente possível e coerente.)

Sempre às ordens!

* Por ser brasileiro o consulente, foi empregada a nomenclatura gramatical do Brasil nesta resposta.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa