O excerto apresentado terá sido retirado do Discurso do então Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, por ocasião da celebração do 10 de junho de 2021 na Madeira.
Neste segmento, o constituinte «à nossa vida» desempenha a função de complemento indireto.
De uma forma geral, o verbo servir pode ser usado como transitivo direto, como em (1):
(1) «O rapaz vai servir o país.»
Pode também ser usado como transitivo indireto com o sentido de «ter uma certa função», como em (2):
(2) «Estes dados servem à equipa.»
O verbo servir tem igualmente usos como transitivo direto e indireto, como em (3), ou intransitivo, como em (4):
(3) «Serviu os convidados de bebidas.»
(4) «Essa roupa não serve.»
No caso em apreço, o constituinte «à nossa vida» pode ser substituído pelo pronome pessoal -lhe, o que indica que estamos perante um constituinte com a função de complemento indireto:
(6) «[…] mundo subterrâneo que lhe serve […]»
Julgamos que esta deverá ser a interpretação avançada em contexto escolar.
No entanto, deixe-se registado que a identificação da função sintática de constituintes desta natureza associados ao verbo servir não é consensual entre os gramáticos. Como regista Celso Luft, há quem defenda a interpretação de que se trata de um complemento direto preposicionado, acrescentando que o verbo evoluiu de transitivo indireto (estrutura patente em formas como «servia ao pai») para uma transitividade direta. Há quem defenda igualmente que o pronome lhe, que substitui o constituinte, é equivalente a -o e resulta de um uso popular da sintaxe do verbo servir1.
Disponha sempre!
1. Cf. Luft, Dicionário prático de regência verbal. Ed. Ática, p. 481.