O uso de anglicismos e seu aportuguesamento nas ciências computacionais - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O uso de anglicismos e seu aportuguesamento
nas ciências computacionais

Actualmente não encontro em Portugal qualquer aceitação oficial dos seguintes termos, aplicados às ciências computacionais, e de uso corrente, que passo a enumerar incluindo o seu significado geral:

I. "Rasterizar"/"Rasterização" (eng. to raster/rastering) — processo de geração de uma imagem rasterizada (composta por píxeis ou pontos) a partir de uma imagem vectorial (composta por vectores), com o fim de ser apresentada em ecrã, imprimida ou guardada em ficheiro.

"Rasterizador" (eng. raster) — Aplicação, função ou extensão de aplicação que processa dados vectoriais multicamada de uma imagem e os transforma, aplica numa só camada para a formação de uma imagem rasterizada.

«Imagem rasterizada» (eng. raster image) — imagem composta por píxeis ou pontos.

II. "Renderizar" (eng. render) — processo de geração de um resultado a partir de dados de um modelo, por meio de uma aplicação informática e com a finalidade de produzir uma realidade virtual.

"Renderizador" (eng. render) — Aplicação, função ou extensão de aplicação que procede à criação do resultado que representa uma realidade virtual.

"Renderização" (rendering) — acto de renderizar, objecto renderizado.

«Imagem renderizada» (rendered image) — imagem processada segundo dados de um modelo com a propósito de representar uma realidade virtual.

(Uma realidade virtual é um objecto criado por computador que apresenta as características visuais de uma realidade possível ou não).

Esta terminologia é aplicada nas áreas da construção civil (ex.: projectos CAD 3D), medicina (imagologia), produção cinematográfica/televisiva.

Quais são os critérios que levam «à criação de uma palavra genuinamente portuguesa que corresponda» a rastering, quando a palavra está em uso, tem significado definido e aceite?

Sendo a palavra original uma invenção/adaptação de uma palavra inglesa, dada a multiplicidade de influências e origem do idioma português, o que quer dizer ou se pode esperar uma «palavra genuinamente portuguesa» quando o conceito não foi inventado neste país?

Pedro Barreira Tradutor Ubuntu Linux Lisboa, Portugal 5K

Os aportuguesamentos apresentados pelo consulente são possíveis e passíveis de se generalizarem como termos técnicos. Na ciências da computação, são numerosos os termos que têm origem no inglês e que foram aportuguesados fonética e ortograficamente.

Quanto à legitimidade dos elementos de origem inglesa, o que se discute muitas vezes entre quem tem de emitir juízos normativos sobre estes anglicismos técnicos é saber até que ponto tais elementos são conciliáveis com a tradição portuguesa de formação de termos técnicos. Esta tradição parece semelhante à de outras línguas provenientes da Europa, incluindo o inglês, e traduz-se sobretudo em criar terminologias com base no grego e no latim; fora deste critério, procura-se que cada língua encontre termos vernáculos, isto é, que correspondam às características fónicas, morfológicas, morfossintácticas e ortográficas de cada idioma. Por conseguinte, o que se discute entre os mais ciosos da vernacularidade é a legitimidade do inglês enquanto língua científica e, principalmente, a aceitabilidade das palavras que nessa língua fazem parte, não do património greco-latino, que se estendeu à Europa com as devidas adaptações locais, mas do léxico de origem anglo-saxónica.

Por ultrapassada que esteja a atitude de resistência à penetração de termos técnicos ingleses, também não acho pertinente o argumento segundo o qual estes anglicismos devem ser aceites porque o conceito a eles associados não foi criado em Portugal. Aceitar esta ideia parece-me, no fundo, negar a possibilidade de toda e qualquer tradução: é verdade que há palavras e frases intraduzíveis ou difícieis de traduzir (dando razão ao velho dito italiano «traduttore, traditore» — literalmente «tradutor, traidor»), mas o português, como outra língua qualquer, é suficientemente plástico para criar neologismos com base nos seus próprios recursos morfológicos e sintácticos — mesmo quando se refere a descobertas materiais ou intelectuais do génio inventivo dos falantes de inglês.

Carlos Rocha
Tema: Línguas de especialidade Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Léxico; Morfologia Construcional