DÚVIDAS

O estudo dos verbos causativos e de perceção nos ensinos básico e secundário

Gostaria de aprofundar a análise sintática de frases complexas com verbos causativos (mandar, fazer, etc) ou verbos sensitivos (sentir, ouvir, etc). Compreendo que seja uma matéria que levante algumas perplexidades, mas considero que não seria desejável remeter o seu estudo apenas para contexto universitário dado que estas frases são muito correntes nos textos, aparecendo com grande frequência.

Exemplos:

O diretor mandou-o sair

O professor deixou-o entrar

A doença fá-lo sofrer

A Maria ouviu-o gritar.

Ora, em todas estas frases complexas estamos na presença de uma subordinante [o diretor] e de uma subordinada completiva de infinitivo não flexionado [-o sair]. A subordinada completiva exerce a função sintática de complemento direto, tal como consta na Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian (p. 1957), citada pelo Ciberdúvidas:

«Os verbos causativos "mandar" e "fazer", o verbo de permissão "deixar" (que costuma ser classificado como "causativo", tal como os dois primeiros) e os verbos de perceção "ver", "ouvir" e "sentir" são predicadores transitivos que selecionam dois argumentos: um argumento sujeito, com o papel temático de agente com os verbos causativos e de experienciador com os verbos de perceção; e um argumento oracional com a função de complemento direto, que denota a situação causada ou percecionada.»

Ora, como o mesmo verbo não pode ter dois complementos diretos, esta análise invalidaria a classificação do pronome “o” como complemento direto. Por exemplo, da frase “o amor fez o poeta sofrer” para a frase “o amor fê-lo sofrer” estamos perante a existência de um pronome “lo”, que na verdade não se trata do complemento direto do verbo fazer, pois o CD do verbo fazer é “o poeta sofrer”. Ou seja, seria aceitável dizer “o amor fê-lo” [o amor fez a ação de colocar o poeta a sofrer / o amor fez isso).

Ora, se mantivermos a construção “o amor fê-lo sofrer”, que é, de facto, uma construção perfeitamente natural na língua, e procedermos à sua análise sintática, constatamos que “o amor” é sujeito, “fê-lo sofrer” é predicado, e o constituinte “lo-sofrer” é complemento direto. Isto significa que, na frase complexa, “lo” não exerce qualquer função sintática, ele é apenas uma parte do Complemento direto do verbo fazer.

Já na oração completiva o pronome “lo” é o sujeito dessa oração completiva. O que se passou aqui foi que o sujeito da oração completiva foi flexionado na forma de pronome para o interior da oração subordinante (como as várias respostas do Ciberdúvidas confirmam: elevação do sujeito da oração completiva a objeto da oração subordinante). Mas esta pronominalização do sujeito da oração completiva na oração subordinante, apesar de ter a mesma forma de um complemento direto (pois os pronomes o/a/os/as e seus derivados habitualmente desempenham a função de CD), não pode ser considerada CD.

Ou seja, estamos perante uma pronominalização em o/a/os/as que não desempenha a função sintática de CD, ao contrário do que foi dito em algumas das respostas do Ciberdúvidas, que passo a citar: “ «O amor fez o poeta sofrer.»

Quando o sujeito da oração completiva é realizado por um pronome, verifica-se um fenómeno a que se dá o nome de "subida do clítico", pelo qual esse sujeito é realizado como complemento direto de "fazer": (4) «O amor fez o poeta sofrer.» (= «O amor fê-lo sofrer.») (construção com oração de infinitivo não flexionado)

Nesta última construção, ocorre o fenómeno designado por elevação do objeto a sujeito, um processo sintático no qual o sujeito da oração subordinada se desloca para o interior da oração subordinante com a função de complemento direto, o que fica evidente pelo facto de o grupo nominal ser nominalizado por meio do pronome -o:” '(4a) «O amor fê-lo sofrer.» Neste caso particular, o constituinte «o poeta», embora seja sintaticamente complemento direto do verbo fazer, semanticamente é agente do verbo sofrer.' in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/fazer-causativo-e-elevacao-do-objeto-a-sujeito/38859 [consultado em 21-01-2026]”

Ora, diz-se explicitamente que o pronome “lo” é CD, pelo facto de o grupo nominal ser nominalizado por meio do pronome “o”.

O que eu defendo é que o facto de o sujeito da subordinada ser nominalizado por “o” na subordinante não implica que passe a ser complemento direto da subordinante, ou seja, defendo eu que a nominalização em “o” não é critério suficiente para ser complemento direto (o que, claro, também viola alguns dos axiomas mais bem sustentados na nossa gramática)

Ora, o que eu contesto aqui é que existe uma contradição que pode vir ou não a ser resolvida. Não podemos assumir umas vezes que na frase o poeta “fê-lo sofrer” o pronome “lo” desempenha a função sintática de complemento direto do verbo fazer e depois assumir também que o constituinte “-lo sofrer” funciona como complemento direto do verbo fazer. As duas afirmações são contraditórias, pois implicariam que o verbo fazer selecionaria dois complementos diretos (repare-se que há casos em que o verbo fazer seleciona dois complementos diretos mas em orações diferentes como “O professor fez o João fazer o trabalho”, que não é aquilo que aqui está em causa). E compreendo que a admissão de dois complementos diretos do mesmo verbo seria uma violação mais profunda das regras mais estabelecidas na gramática (mas que não seria nenhum escândalo se mudassem, como pode acontecer ao longo do tempo).

É por isso que, na minha opinião, existiriam pelo menos duas soluções de análise sintática da frase “o amor fê-lo sofrer”

Alternativa 1: Sujeito: o amor Complemento direto do verbo fazer: -lo Predicativo do complemento direto: “sofrer” (esta sim oração infinitiva não flexionada) Ou seja, se assumirmos que “lo” é complemento direto do verbo fazer não restaria outra alternativa: teríamos de considerar “sofrer” uma caraterística do complemento direto, um predicativo do complemento direto. Estaríamos a predicar o CD como uma entidade que está a sofrer. Mas esta opção é rejeitada pelas gramáticas, segundo esclarecimentos do Ciberdúvidas, o que admito perfeitamente.

Logo, e sendo assim, só parece restar a seguinte alternativa 2: Sujeito: o amor Complemento direto: -lo sofrer (oração completiva infinitiva não flexionada) E portanto, o pronome “lo” não poderia ser o complemento direto do verbo fazer, constituiria apenas e tão só uma forma de pronominalizar o sujeito acusativo da oração completiva, forma essa que, excecionalmente, não denota um complemento direto.

Com este esclarecimento pretendo apenas contribuir para a discussão salutar. É verdade que pode ser um assunto apenas para nível universitário e inadequado para discutir no ensino secundário. Mas vejamos: a frequência destas frases é tão grande que certamente em muitas salas de aula deste país haverá muitos professores que, ao verem a frase “o amor fê-lo sofrer”/o professor mandou-o sair/ o João viu-o entrar”, cairão na tentação de perguntar aos alunos qual a função sintática do pronome “lo/o” e obterão como resposta, considerada pelos mesmos professores correta, que o pronome “lo” desempenha a função sintática de complemento direto do verbo fazer. Mais uma vez, muito obrigado pela vossa paciência e mais grato ainda pelo vosso excelente trabalho.

Resposta

 Para aprofundarmos a questão, teremos de entrar em domínios que, claramente, se afastam do previsto para a análise gramatical nos referenciais curriculares em vigor.

A frase em questão, transcrita em (1), pode ser analisada de duas formas distintas. A primeira delas apresenta-se em (1a):

(1) «O amor fez o poeta sofrer.»

(1a) «[O amor fez] [o poeta / ele sofrer].»

Em (1a), estamos perante uma frase complexa, composta por duas orações: uma oração subordinante («O amor fez») e uma oração subordinada completiva («o poeta sofrer»). Esta última oração encaixa-se na frase como argumento do verbo fazer, com a função de complemento direto. O constituinte «o poeta» encontra-se no interior desta oração subordinada, desempenhando a função de sujeito, pelo que será substituível pelo pronome ele. Esta seria uma situação de construção completiva com infinitivo flexionado, como se comprova pela possibilidade de (1b):

(1b) «O amor fez os poetas sofrerem.»

A frase (1) admite um segundo nível estrutural no qual o constituinte «o poeta» é deslocado do interior da oração infinitiva para o interior da oração subordinante. Trata-se de um caso de elevação de sujeito a objeto, ou seja, o sujeito gramatical da oração subordinada é elevado a complemento direto do verbo da oração subordinante, como o comprova a possibilidade de substituição pelo pronome acusativo -o:

(2) «[O amor fez o poeta] [[-] sofrer].»

(2a) «O amor fê-lo sofrer.»

O consulente coloca a questão de, no quadro desta interpretação, o verbo fazer ter dois complementos diretos: o constituinte «o poeta» e a oração subordinada infinitiva. Todavia, de acordo com o preceituado na Gramática do Português, tal não deve ser a interpretação deste fenómeno. Teremos de considerar este caso uma situação sintática particular e enquadrá-la no âmbito das construções de elevação. Note-se que, nos casos de elevação de sujeito a objeto, o complemento direto do verbo da oração subordinante não é um argumento do verbo. Assim, no caso da frase (2), o constituinte «o poeta» não é argumento do verbo fazer. Com efeito, o único argumento deste verbo é a oração infinitiva, numa estrutura que fica patente em (1). Por esta razão, o constituinte «o poeta» mantém o estatuto de sujeito semântico do verbo sofrer. Deste modo, estas construções não deverão ser objeto de uma análise similar à de outras situações, uma vez que temos um caso particular de uma oração que é argumento do verbo fazer, mas não ocupa a respetiva função sintática de complemento direto, e um argumento do verbo sofrer que também não ocupa a respetiva função sintática de sujeito.

Fica no ar, todavia, qual o espaço sintático ocupado pelo constituinte correspondente à oração infinitiva. Não me parece ser um caso de duplo preenchimento da função de complemento direto dada a independência dos dois constituintes (diferente da dos casos de redobro de uma função). A hipótese de se tratar de um predicativo do complemento direto poderá, noutro ângulo, ser uma perspetiva interessante que aqui não poderemos investigar. Note-se, porém, que uma das características do predicativo do complemento direto é a possibilidade de formar com o complemento direto uma oração pequena parafraseável por uma oração copulativa, o que não parece verificar-se neste caso. Observamos a diferença entre as frases (3) e (4):

(3) «Considero o João simpático.» = «Considero-o simpático.» = «O João é simpático.»

(4) «O amor fez o poeta sofrer.» = «O amor fê-lo sofrer.»  = ?«O João é sofrer.»

Não obstante, a oração infinitiva incide sobre o complemento direto sintático tal como o predicativo do complemento direto incide sobre o complemento direto na frase (3). Tal poderá, no entanto, suceder porque a oração infinitiva se relaciona intrinsecamente com o seu sujeito semântico.

Por fim, concordamos que estas construções são frequentes nas línguas, mas estamos em crer que, apesar desta assinalável frequência, a complexidade que envolvem e a densidade sintático-semântica que implicam não fazem delas um tópico acessível para o quadro do ensino básico e secundário. Não obstante, a nossa opinião não tem qualquer valor vinculativo relativamente à decisão relacionada com os conteúdos a integrar num quadro curricular.

Disponha sempre!  

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