DÚVIDAS

Fazer causativo e elevação do objeto a sujeito

Bom ano a toda a equipa do Ciberdúvidas.

A minha dúvida prende-se com a análise sintática e oracional da seguinte frase: «O amor fez o poeta sofrer.»

Ora, se a frase fosse «O amor fez do poeta infeliz» teríamos um complemento oblíquo («do poeta») e um predicativo do complemento oblíquo («infeliz»). Se a frase fosse «O amor fez o poeta infeliz» teríamos um complemento direto («o poeta») e um predicativo do complemento direto («infeliz»).

Agora neste caso que coloquei inicialmente («O amor fez o poeta sofrer») avanço duas hipóteses.

A primeira é considerar «o poeta sofrer» uma oração substantiva completiva com a função sintática de complemento direto e nesse caso poderia ser toda substituída pelo pronome o: «O amor fê-lo.»

No entanto, esta hipótese não me soa bem e por isso pergunto se é possível dizer «O amor fê-lo sofrer». Se for esta a opção correta, ou seja, assumindo «o poeta» como complemento direto, o constituinte «sofrer», sendo um verbo no infinitivo, continua a ser considerado predicativo do complemento direto?

E se assim for como fazer a análise oracional da frase?

Muito obrigado.

Resposta

No caso em apreço, estamos perante uma frase complexa composta por uma oração subordinante e por uma oração subordinada completiva infinitiva, tal como se assinala por meio de parênteses retos:

(1) «[O amor fez]oração subordinante [o poeta sofrer]oração subordinada completiva infinitiva

Esta frase tem, contudo, algumas particularidades que importa considerar para se compreender a sua natureza.

Em primeiro lugar, o verbo da oração subordinante (fazer) é causativo, o que significa que exprime a ideia de que o sujeito da oração causa a situação descrita na subordinante. Com este valor, o verbo fazer pode construir-se com três tipos de construção:

(2) «O amor fez com que o poeta sofresse.» (construção com oração subordinada finita)

(3) «O amor fez os poetas1 sofrerem.» (construção com oração subordinada de infinitivo flexionado)

(4) «O amor fez o poeta sofrer.» (construção com oração de infinitivo não flexionado)

Nesta última construção, ocorre o fenómeno designado por elevação do objeto a sujeito, um processo sintático no qual o sujeito da oração subordinada se desloca para o interior da oração subordinante com a função de complemento direto, o que fica evidente pelo facto de o grupo nominal ser nominalizado por meio do pronome -o:

(4a) «O amor fê-lo sofrer.»

Neste caso particular, o constituinte «o poeta», embora seja sintaticamente complemento direto do verbo fazer, semanticamente é agente do verbo sofrer.

Em síntese, neste caso o verbo fazer assume uma estrutura argumental distinta daquela que está presente nas frases (5) e (6), na qual se comporta como transitivo-predicativo:

(5) «O amor fez do poeta infeliz.»

(6) «O amor fez o poeta infeliz.»

Em nome do Ciberdúvidas, retribuo os gentis votos de bom Ano de 2026.

Disponha sempre!

 

1. Flexiona-se o nome no plural para permitir a identificação da flexão do infinitivo.

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