DÚVIDAS

O complemento do nome preconceito

Considere-se a frase:

«António sente que o preconceito com a comunidade brasileira é grande e o crime organizado aproveita-se.»

O constituinte «com a comunidade brasileira» classifica-se de acordo com qual das duas designações?

1. Um complemento do nome, pois alguns nomes derivam de verbos ou adjetivos que exigem um argumento para completar o seu sentido.

O nome preconceito implica que algo ou alguém é o alvo desse sentimento. Quem tem preconceito, tem preconceito contra algo ou com alguém. Ao contrário de um modificador (como antigo ou injusto), que apenas acrescenta uma característica, o constituinte «com a comunidade brasileira» preenche o sentido do que é o preconceito neste contexto. O nome preconceito é de natureza relacional ou de processo. Se dissermos apenas «O preconceito é grande», a frase é gramatical, mas fica semanticamente incompleta no contexto da mensagem do António. O constituinte «com a comunidade brasileira» funciona como o argumento interno do nome, sendo que este grupo preposicional define o objeto do preconceito, restringindo-o de forma tão intrínseca que ele atua como um complemento selecionado pelo nome.

2. Um modificador do nome: o nome preconceito já tem sentido completo por si só (?).

A expressão «com a comunidade brasileira» apenas especifica quem é alvo do preconceito, mas não é obrigatória para que a palavra preconceito faça sentido. Por isso, segundo o Dicionário Terminológico, esta expressão é um modificador do nome (facultativo), e não um complemento do nome (obrigatório).

Antecipadamente grata pela explicação, fico a aguardá-la.

Resposta

No caso em apreço, o constituinte «com a comunidade brasileira» desempenha a função de complemento do nome.

Entre os nomes dependentes que pedem complemento, encontramos os nomes que descrevem estados psicológicos. São exemplo desta categoria nomes como alegria, medo, tristeza, amor, ódio, entre outros. Como explicam Brito e Raposo, estes nomes de estado psicológico podem ter dois tipos de complemento:

(i) o experienciador: «o medo da Rita»

(ii) o conteúdo do estado psicológico: «o medo de aranhas»

Estes nomes psicológicos podem aparecer em construções com verbos leves, nas quais o experienciador surge como sujeito:

(1) «A Rita tem medo de aranhas.» (o medo da Rita de aranhas)

Deste modo, o nome preconceito pode ser considerado também um nome dependente que poderá ter como complemento quer um experienciador («preconceito do João»), como o conteúdo desse estado psicológico («preconceito com a comunidade brasileira»).

Disponha sempre!

 

Brito e Raposo in Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1063.

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