«Não gosto de tudo» vs. «não gosto de nada» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Não gosto de tudo»
vs. «não gosto de nada»

Qual a formulação correta? «Não gosto de tudo o que me lembra defuntos», ou «não gosto de nada que me lembre defuntos»?

Maria Adelaide Miranda Vaz de Carvalho Aposentada Braga, Portugal 42

Ambas as possibilidades estão corretas, embora possam ter significados distintos.

Entre não e nada costuma estabelecer-se uma concordância negativa para expressar a negação existencial de uma dada classe:

(1) «Não gosto de nada que tenha creme.»

Esta frase negativa corresponde à frase afirmativa:

(2) «Gosto de tudo o que tenha creme.»

Assim, se a intenção for a de negar o gosto por tudo o que lembre defuntos, será mais natural o recurso a não… nada:

(3) «Não gosto de nada que me lembre defuntos.»

A construção com tudo incide na totalidade de coisas que lembram defuntos, que se pretende negar, pelo que poderá constituir uma opção estilística que reforça a negação de um todo:

(4) «Não gosto de tudo o que lembra defuntos.»

Acresce que o uso do modo indicativo confere à existência deste todo um cariz de realidade, ou seja, existe, de facto, uma totalidade de coisas que  lembram defuntos de que não se gosta. Por sua vez, a utilização do conjuntivo na construção introduzida por nada aponta para uma possibilidade e não para uma factualidade.

Em suma, em (3) e (4) estamos perante duas frases semanticamente distintas, pois não referem o mesmo universo.

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: pronome
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Negação