DÚVIDAS

Fobia como elemento de composição

No jornal Público, de 28/05/2026, dei com "maisfobia", uma palavra (?) que se lê no título de um artigo de opinião: "Gente a mais? A preguiça intelectual e moral da 'maisfobia'".

No texto, reagindo aos críticos da sigla LGBTQIA+, a autora define o termo por ela cunhado:

«Maisfobia n.f. - hostilidade ou desconforto perante a multiplicação, complexificação ou autodeterminação de categorias de identidade e sociais para além das formas consideradas normativas; tendência para considerar excessivo, confuso, ilegítimo e/ou perigoso aquilo que excede o binário ou o sistema de classificação dominante, reduzindo a diversidade a uma versão simplificada e autocentrada do real.»

"Maisfobia" é uma palavra correta?

Não estaremos a exagerar na formação de palavras formadas com fobia , por exemplo, no discurso polémico?

Resposta

O atual uso de fobia é hoje especial frequente em referência a qualquer medo ou aversão ou até ódio, e, nesta perspetiva, é usado depreciativamente, em discursos polémicos condenatórios.

A composição e derivação de palavras pode ter função crítica num texto argumentativo. São geralmente vocábulos de duração efémera, como, por exemplo, acontece com muitos compostos formados com o elemento -cracia, que exprime a noção de «poder» e sobre o qual se lê no Dicionário Houaiss:

«[...] a maioria desses compostos [formados com cracia], originados a partir do século XIX e cujo surgimento intensificou-se no século XX, é de palavras ad hoc e não raro pejorativas.»

Exemplos recentes destes compostos de -cracia: "ineptocracia", "roubocracia" e "concursocracia", todos recolhidos em fontes brasileiras (cf. Corpus do Português) mas potencialmente presentes em qualquer outra variedade do português.

Atualmente, no contexto do tema da identidade de género e da igualdade de direitos, o elemento de composição -fobia ocorre com intencionalidade fortemente crítica. Os exemplos são geralmente formações arabitrárias, à revelia das regras que em tempos legitimavam compostos com elemento clássicos (ver Corpus do Português): "portofobia" («aversão do poder central à cidade do Porto»); "cristianofobia" («ódio aos cristãos); ou o atestado misofobia («medo da sujidades ou dos germes») ou, também, "germofobia", termo este menos estável1.

Deste modo, formas como "maisfobia", subentendendo «aversão ou ódio ao símbolo mais que figura na sigla LGBTQIA+», ocorrem como palavras intrinsecamente críticas e acusatórias. Diag-se, no entanto, que será uma criação muito pontual, que inclusivamente pode repetir-se, mas que pode não alcançar um uso consistente de modo a ter dicionarização-

1 Germofobia ocorre ocasionalmente, como sucede numa crónica do porfessor universitário e antigo Ministro da Educação João Costa, intitulada "A Ministra do Trabalho tem carro próprio? Tire-se-lhe o ordenado (em nome da moral)" (Expresso): «[...] sendo psicóloga, teria ferramentas para ultrapassar a sua aporofobia [aversão aos pobres] e a sua germofobia.»

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