Enamorar-se: norma e evolução de uso - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Enamorar-se: norma e evolução de uso

Venho parabentear-vos por este vosso esforço em prol da língua portuguesa e, ao mesmo tempo, questionar-vos sobre uma particularidade da regência de enamorar.

Na pergunta «A regência de enamorar-se», [...] vós respondestes que «A regência correcta de enamorar-se é com a preposição de.» No entanto, pesquisei na Internet e encontrei vários sítios que regem enamorar-se com a preposição por, tal como a regência de apaixonar-se. Serão erros desses mesmos sítios ou a regência de enamorar-se está a mudar e está a começar a aceitar essas duas possibilidades? Pergunto isto porque tive um professor de linguística na faculdade que me dizia que o idioma não é feito pelas convenções, mas sim pelos falantes do mesmo.

Desde já, muito obrigado pelo vosso auxílio.

Lanito Molita Estudante Lisboa, Portugal 224

De um ponto de vista normativo, o verbo enamorar tem um uso transitivo e um uso pronominal.

No seu uso transitivo, o verbo não é regido por preposição:

(1) «A personagem principal enamorou os leitores.»

Quando usado pronominalmente, o verbo é, de facto, regido pela preposição de, o que se encontra atestado, por exemplo, pelo Dicionário sintáctico de verbos portugueses (W. Busse: 1994), pelo Vocabulário – Regime preposicional de verbos (Nunes e Sardinha: 1999) ou pelo Dicionário Houaiss, entre outros:

(2) «Ela enamorou-se do jovem.»

As ocorrências do verbo regido pela preposição por poderão ficar a dever-se à proximidade de significados entre enamorar-se e apaixonar-se, este último regido pela preposição por.

É evidente que os usos da língua, por vezes, se afastam da norma. Este é um dos fatores que faz da língua um organismo dinâmico e em evolução. Não obstante, em linguística, não é possível prever se um determinado uso se vai impor e passar, no futuro, a integrar a norma.

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo
Áreas Linguísticas: Sintaxe Campos Linguísticos: Regência