Expressão adjetival intercalada numa oração relativa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Expressão adjetival intercalada numa oração relativa

Gostava de uma explicação acerca da utilização da palavra que. Surgiu o problema ao deparar-me com a letra de uma música sacra e pareceu-me que algo não está bem. Perguntei a outros colegas e eles dizem-me que gramaticalmente está correcto. A frase em questão é:

«Fortalecei-nos com a protecção que, maternal do vosso coração, nas incertezas sempre nos conduz.»

Pessoalmente faria uma alteração da palavra que para depois do conteúdo entre as duas virgulas. Ficaria assim:

«Fortalecei-nos com a protecção, maternal do vosso coração, que nas incertezas sempre nos conduz.»

No entanto gostava de saber "quid est veritas?" (o que é a verdade?), porque embora me pareça auditivamente mais "lógico", poderá não o ser.

Grato pela atenção

Paulo Jorge Professor de História Porto, Portugal 439

Ambas as possibilidades assinaladas estão corretas.

O constituinte «maternal do vosso coração» tem como núcleo um adjetivo relacional («maternal» = «que é relativo à mãe») e desempenha a função de modificador apositivo do nome proteção. Numa perspetiva normativa, nos casos em que o nome é modificado por um adjetivo relacional, este deve ser colocado imediatamente a seguir ao nome que modifica (cf. Raposo et al., Gramática do Português, p. 1107), como se verifica pelo contraste entre a construção (1), que é gramatical, e a construção (2), que é agramatical:

(1) «O amor maternal de quem dá à luz.»

(2) «*O amor de quem dá à luz maternal.»

Se atentarmos, agora, na oração relativa, vemos que o pronome relativo que tem como antecedente o nome proteção e introduz uma oração subordinada adjetiva relativa com função de modificador restritivo do nome. O pronome relativo que tem também tendência a colocar-se junto do seu antecedente, pelo que, se omitíssemos o primeiro modificador, a frase teria a seguinte construção:

(3) «Fortalecei-nos com a proteção que nas incertezas sempre nos conduz.»

Acresce, ainda, que, quando o nome tem mais do que um modificador, como acontece no exemplo em apreço, os modificadores oracionais são colocados preferencialmente no final do grupo nominal (Id., ib.). A frase (4) respeita estes princípios:

(4) «Fortalecei-nos com a proteção, maternal do vosso coração, que nas incertezas sempre nos conduz.»

Não obstante, o que se verifica no exemplo apresentado é uma situação em que o constituinte adjetival «maternal do vosso coração» intercala a oração subordinada relativa, ficando assim suficientemente próximo do nome que modifica para poder assegurar o sentido da frase. Esta liberdade sintática pode ser justificada, em termos literários ou musicais, por uma questão de ritmo e/ou de métrica, pelo que é aceitável. 

Carla Marques
Tema: Uso e norma
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe