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Ainda «ter que ver com»

Repetidamente se tem afirmado aqui que «ter que ver com» está correcto e «ter a haver com» está errado. Nunca vi, na argumentação, qualquer referência ao latim para consubstanciar essa afirmação. Porquê? O latim não nos pode ajudar aí?

Por outro lado chamo a atenção de que o equivalente em inglês é «this has nothing to DO with that», e em holandês é «dit heeft daar niets mee te MAKEN». Em ambos os casos, os verbos (to do e maken) estão mais próximos do sentido de haver do que de ver, o que pode indiciar que a vossa interpretação pode não estar correcta. Quererão V. Exas. voltar a este assunto?

Nuno Cardoso da Silva Professor universitário Lisboa, Portugal 5K

Sobre as origens latinas da expressão portuguesa (sinónima de «dizer respeito a») e das suas equivalentes noutras línguas de origem europeia, não encontro informação clara. Uma tradução latina acessível de «ter que ver com» ou «ter a ver com» parece ser feita com o verbo pertinēre («estender-se até, ir até, chegar a; tender a, ter por fim, visar a; referir-se, dizer respeito a», Dicionário Houaiss, s. v. ten-), o qual, como se vê, é uma unidade vocabular, mas não uma expressão fixa de dois ou mais termos. Tampouco acho elementos sobre uma hipotética origem no latim vulgar ou no latim usado como língua franca, administrativa e científica, em grande parte da Europa; supondo que estas variedades do latim tiveram influência sobre a genaralidade das línguas europeias (românicas ou não), seria de esperar que esta conjectura permitisse compreender um pouco melhor as semelhanças e dissemelhanças entre a expressão portuguesa e as suas equivalentes. Trata-se de uma investigação por fazer.

Já não me parece válido invocar o inglês e o neerlandês para apoiar a legitimidade de haver em lugar de ver na expressão em apreço, porque o que mostra a correspondência termo a termo entre as três expressões é o seguinte:

a) o verbo inglês have (has) e o neerlandês hebben (heeft) traduzem-se por ter;

b) o verbo inglês do e o neerlandês maken traduzem-se por fazer;

c) dizer que fazer está mais próximo de haver do que de ver é uma afirmação apressada, porque não se diz de que ponto de vista é avaliada essa proximidade semântica: por exemplo, a afinidade com haver pode igualmente relevar de certas acepções do verbo ver, mais salientes em certos contextos  (ver Dicionário Houaiss): «manter relacionamento ou contacto com» («nunca mais nos vimos») e «procurar (algo) para (alguém, uma finalidade); providenciar, ir buscar, trazer» («disse que ia ver uma nova empregada»).

Passando às línguas românicas, parece que as expressões correspondentes preferem um item equivalente a ver. Com efeito, em francês também se diz «rien à voir» («Je n´ai rien à voir dans cette affaire, là-dedans»1, Le Robert Micro, dir. Alan Rey, Paris, Dictionnaires Le Robert, 1992, s. v. voir). Em espanhol e em português, a construção tradicional inclui o verbo ver:

«tener que ver alguien o algo con otra persona o cosa. 1. loc. verb. Haber entre ellos alguna conexión, relación o semejanza» (dicionário da Real Academia Espanhola).

«Ter que ver com» e «ter a ver com» (há normativistas que consideram «ter que ver com» a única forma correcta).

Em suma, não disponho de dados que apontem para a forma «ter a haver com», usada com o significado de «dizer respeito a», ser tão ou mais antiga que «ter que/a ver com». Seja como for, e como já se expôs noutras respostas, a tradição normativa legitima «ter que ver com», desaconselhando «ter a ver com», por galicismo, e classificando como erro «ter a haver com», quando ocorre como deturpação (ou reanálise, em termos menos severos) de «ter a ver com».2

1 «Não tenho nada que ver com esse assunto aí» (tradução livre).

2 A locução «ter a haver» está correcta quando usada no sentido de «receber», «ganhar»: «Contas feitas, tive a haver 200 €.»

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma
Áreas Linguísticas: Léxico; Sintaxe