A falta de concordância do adjectivo com verbos e pronomes - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A falta de concordância do adjectivo com verbos e pronomes

Leio, em Saber Escrever Uma Tese e Outros Textos, de Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão: «A pessoa do discurso geralmente utilizada nos trabalhos científicos é a 1.ª pessoa do plural (nós) dos verbos e pronomes. (...) O adjectivo, porém, mantém-se no singular e no género da pessoa que optou por usar o plural de modéstia (nós).
Ex.: Passaremos, agora, ao segundo aspecto desta questão, sobre a qual estamos amplamente documentada.»

Confesso que esta falta de concordância do adjectivo me faz alguma impressão, mas o que mais me preocupa é a possível reacção de um júri perante uma tese que respeite esta regra e que não esteja minimamente alertado para ela (note-se que nem todas as teses versam temas de linguística!). Como poderá um candidato, ao elaborar a sua tese, proteger-se disto? Por outras palavras, haverá alguma forma de assegurar a um júri que a tese foi elaborada segundo regras correctas embora claramente violadoras das regras gramaticais comuns?

António Matos Godinho Médico Guarda, Portugal 5K

Trata-se de um uso que, anteriormente, já foi descrito por Rodrigues Lapa, na Estilística da Língua Portuguesa (Coimbra, Coimbra Editora, 10.ª edição, 1979, pág. 232):

«Quando a pessoa do verbo, no plural, se refere a um só indivíduo, costuma pôr-se o predicado no singular, como neste exemplo de João de Barros: "Antes sejamos breve que prolixo." O autor usou, no verbo, o plural de modéstia; mas o adjectivo não deve ser atingido por esse plural e deve logicamente referir-se à primeira pessoa do singular. Há porém uma lógica do pensamento e uma lógica da língua; e assim é que hoje aquela frase se pode construir no plural. Terá contribuído também para isto a circunstância de quem fala ou escreve se sentir solidário com as pessoas que ouvem ou lêem. Os gramáticos fazem reparo neste passo de Vieira, em que a concordância, dizem, se faz menos logicamente: "Somos chegados ao último sonho de Xavier." Ora o plural refere-se não só ao orador, mas ainda aos ouvintes, interessados na prédica. De modo que, coerência linguística, acentuação de modéstia e propósito de comunicabilidade são motivos que concorrem hoje, mais ainda que outrora, para pôr o predicativo no plural.»

Nesta passagem, deve-se entender por «predicado» o predicativo do sujeito, tal como se encontra em «estamos amplamente documentada». Além disso, parece indicar-se que, num texto expositivo ou argumentativo, a não-concordância do predicativo era a regra, por razões referenciais, ou seja, quando o autor era um indivíduo; neste caso, a concordância era considerada por muitos gramáticos como incorrecta. Deste modo, a não-concordância deveria ser um uso conhecido não apenas na linguística mas também nas humanidades em geral e até no discurso de outras áreas académicas. Mas é possível que actualmente haja membros do júri de uma prova académica que não acatem o preceito enunciado por Estrela, Soares e Leitão, julgando ou defendendo muito logicamente que a concordância é obrigatória. O melhor será os candidatos discutirem com os respectivos orientadores as opções a tomar quanto à pessoa do discurso num tese. Em alternativa, poderão, por precaução, justificar, em breves palavras nas páginas introdutórias da tese, alguns aspectos do estilo adoptado.

 

Carlos Rocha
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto; Sintaxe