DÚVIDAS

A vírgula antes de e:
certo ou errado?
Gostava de saber qual o motivo de se proibir a vírgula entre orações coordenadas ligadas por e e que partilhem o mesmo sujeito, quando muitos escritores empregaram e empregam a vírgula nesses casos. Não só não estamos a usar os textos dos grandes escritores como modelo do que deve ser a norma sintática, como também, e pior, estamos a transformá-los num exemplo do que não se deve fazer. Uma criança vai à escola, é penalizada por meter vírgula numa frase como: «O João foi brincar para o jardim, e voltou ao entardecer»; para depois ler um livro e verificar que muitos outros não só fazem o mesmo como ainda são elogiados pela sua prosa. Resultado, começa-se a desacreditar do que se aprende na escola. Idem para enumerações. Idem para os e que são aceites depois do ponto final (no início, portanto, da frase seguinte) e do ponto e vírgula em contextos que não seriam aceites depois da vírgula, apesar de a diferença ser meramente estilística... (Aqui, não se pode fazer, mas nas outras situações já se pode?)
Empréstimos, extensão semântica e polissemia
Em primeiro lugar, gostaria de dar os parabéns aos colaboradores do Ciberdúvidas pelo excelente trabalho desenvolvido e de agradecer o contributo dado para a dignificação da língua portuguesa. Na TLEBS, surgem vários processos de neologia: «extensão semântica», «empréstimos interno» e «externo», «amálgama», «sigla», «acronímia» e «onomatopeia». Os conceitos «empréstimo interno» e «extensão semântica» são muito próximos, mas, no meu entender, a distinção entre ambos não é muito difícil. Penso que a noção de empréstimo interno se aplica quando estamos perante um intercâmbio que se baseia em propriedades, em semelhanças físicas do que é representado pelas unidades lexicais. É o exemplo de «rato» (TLEBS). O intercâmbio é possível dada a semelhança entre o «rato» (animal) e o «rato» (dispositivo informático). Quanto à extensão semântica, é um conceito que, tal como o nome indica, se aplica quando uma palavra passa a ser usada num outro domínio, dado o seu significado, o seu conteúdo semântico. É o caso de janela (TLEBS), que é usada no mundo informático pelo seu significado – abertura pela qual se estabelece comunicação. Não sei se esta interpretação estará totalmente correcta, mas é dela que parto para expor a minha dúvida. Como fazer a distinção entre estes conceitos e a noção de polissemia? Um exemplo de polissemia dado no documento TLEBS: alterações, destaques, propostas, disponível no sítio do Ministério da Educação, é a palavra operação (cirúrgica, matemática...). Esta palavra não pode ser um exemplo de extensão semântica? Porquê? Para mim é difícil compreender a diferença, principalmente quando a definição de extensão semântica é, no mesmo documento, «característica própria da evolução das unidades lexicais (...) cujos conteúdos semânticos são susceptíveis de adquirir novas polissemias através do uso.» Por exemplo, sempre considerei a palavra «caracol» uma palavra polissémica. Mas até então não havia estes novos conceitos de empréstimo interno e extensão semântica. Além disso, e li isto em algumas gramáticas, um dos critérios para identificar palavras polissémicas (e distingui-las, por exemplo, de palavras homónimas) era o facto de estas corresponderem a uma única entrada do dicionário. Mas é o que acontece com as palavras «rato» e «janela». Daí a minha dúvida. Por que motivo não se classificam estas palavras como palavras polissémicas? E relativamente à palavra «caracol», é uma palavra polissémica? É um empréstimo interno? É um exemplo de extensão semântica? Não sei se estas dúvidas são absurdas. E não sei até que ponto estas noções se excluem... Será que a polissemia é uma noção mais abrangente, que engloba depois o empréstimo interno e a extensão semântica? Será que os exemplos dados são, todos eles, palavras polissémicas, mas depois, mais especificamente, podem ser classificados como empréstimos internos ou extensões semânticas? Peço desculpa pela extensão da minha dúvida e espero que ela não seja totalmente absurda.
Ainda o «ensino a (ou "à") distância»
Uma das maiores dificuldades dos Brasileiros de escrever é saber quando se põe "a" ou "à". Tal é a frustação, que já há um projeto de lei para eliminar a "crase" (isto todos sabem dizer...) Aprendem na escola imensos nomes gramaticais dificílimos (mais sofisticados do que os nossos) para além de regras infernais que fazem cair qualquer um num desespero! Mas na prática só os mais instruídos sabem aplicar com segurança (o problema é que se pronuncia da mesma forma). Sendo português (a viver no Brasil), e aplicando a velha tradição das nossas mães, digo-lhes «imaginem que a palavra que está à frente do "a/à" é masculina, se vocês usassem "o", então será "a"; se usassem "ao", então será "à"». As pessoas ficam delirantes e conseguem aplicar sem erro em quase todas as situações. Ao aplicar esta minha regra à expressão «ensino a/à distância», o correto seria escrever «Ensino à distância» (que é como todos os portugueses pronunciam na prática). De fato, diríamos «ensino ao longe» e nunca «ensino a longe". Sei que aqui é um pouco diferente, pois temos um advérbio substantivado...No entanto os dicionários têm consagrado (ver Porto Editora) como equivalente à expressão «ao longe» a expressão "à distância". Ninguém diria «vi-te a distância», mas, sim, «vi-te à distância». Aliás, a expressão «vi-te a distância» pode sugerir muitas mais coisas: «vi-te a distância (que procuravas...)», etc. Na minha opinião «ensino a distância» não está incorreto, pois não viola nenhuma regra gramatical, mas vai contra o uso corrente (que também está correto). Mais uma vez o capricho estético momentâneo de alguns eruditos foi por cima da lógica cristalina da linguagem do povo. Se um uso é correto (tem coerência interna), comum, antigo e tradicional, para quê mudar? Agora vou provar que o «povo tem razão», mostrar a sabedoria escondida do povo... Se «ensino a distância» está certo, então na forma verbal deveríamos dizer «Eu ensino a distância», «Tu ensinas a distância». Experimentem algum dia dizer isso e ouvirão: «Ensinas a distância de quê?». Se existem várias soluções para uma expressão, deve-se escolher, na minha opinião, aquela que é menos ambígua, pois o objetivo primário é comunicar, ou não é? Parabéns a todos por este sítio!
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