Ainda o «ensino a (ou "à") distância» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Ainda o «ensino a (ou "à") distância»

Uma das maiores dificuldades dos Brasileiros de escrever é saber quando se põe "a" ou "à". Tal é a frustação, que já há um projeto de lei para eliminar a "crase" (isto todos sabem dizer...) Aprendem na escola imensos nomes gramaticais dificílimos (mais sofisticados do que os nossos) para além de regras infernais que fazem cair qualquer um num desespero! Mas na prática só os mais instruídos sabem aplicar com segurança (o problema é que se pronuncia da mesma forma).

Sendo português (a viver no Brasil), e aplicando a velha tradição das nossas mães, digo-lhes «imaginem que a palavra que está à frente do "a/à" é masculina, se vocês usassem "o", então será "a"; se usassem "ao", então será "à"». As pessoas ficam delirantes e conseguem aplicar sem erro em quase todas as situações. Ao aplicar esta minha regra à expressão «ensino a/à distância», o correto seria escrever «Ensino à distância» (que é como todos os portugueses pronunciam na prática). De fato, diríamos «ensino ao longe» e nunca «ensino a longe". Sei que aqui é um pouco diferente, pois temos um advérbio substantivado...No entanto os dicionários têm consagrado (ver Porto Editora) como equivalente à expressão «ao longe» a expressão "à distância". Ninguém diria «vi-te a distância», mas, sim, «vi-te à distância». Aliás, a expressão «vi-te a distância» pode sugerir muitas mais coisas: «vi-te a distância (que procuravas...)», etc.

Na minha opinião «ensino a distância» não está incorreto, pois não viola nenhuma regra gramatical, mas vai contra o uso corrente (que também está correto). Mais uma vez o capricho estético momentâneo de alguns eruditos foi por cima da lógica cristalina da linguagem do povo. Se um uso é correto (tem coerência interna), comum, antigo e tradicional, para quê mudar?

Agora vou provar que o «povo tem razão», mostrar a sabedoria escondida do povo... Se «ensino a distância» está certo, então na forma verbal deveríamos dizer «Eu ensino a distância», «Tu ensinas a distância». Experimentem algum dia dizer isso e ouvirão: «Ensinas a distância de quê?». Se existem várias soluções para uma expressão, deve-se escolher, na minha opinião, aquela que é menos ambígua, pois o objetivo primário é comunicar, ou não é?

Parabéns a todos por este sítio!

Paulo Pereira Brasil 4K

O tema da crase nas locuções adjectivas levanta algumas dúvidas pertinentes. Como o consulente menciona, é difícil para um falante de português brasileiro distinguir foneticamente um à de um a. No português do Brasil existe tendência para pronunciar à e a como [a], o que pode causar alguma confusão e dificultar a distinção do uso da contracção da preposição com o artigo definido do uso da simples preposição. A presença ou não do acento gráfico da crase não é, portanto, sentida foneticamente em português brasileiro. No entanto, em português europeu não se confunde, foneticamente, o a [ɐ] (artigo definido singular ou preposição) com o à [contracção da preposição a com o artigo definido a], cuja pronúncia é [a].

O consulente apresenta os exemplos «vi-te a distância» e «eu/tu ensino/ensinas a distância» para apoiar argumentos contra «ensino a distância», expressão que se torna ambígua nas referidas frases e que, por isso, perde eficácia comunicativa. É verdade que o termo «a distância» em «eu/tu ensino/ensinas a distância» pode ser interpretado quer como o objecto de ensino (ou seja, a distância que está sendo ensinada ou estudada) quer como uma locução adverbial que exprime modo («ensino a distância» por analogia com outras expressões «compra a prestações»). No entanto, o contexto permite desambiguar tais ocorrências: por um lado, um professor de Matemática pode dizer «Eu ensinei a distância entre duas rectas na aula passada», sem ambiguidade, porque «a distância» é uma expressão nominal que selecciona um complemento, «entre duas rectas»; por outro, também não há ambiguidade em «O ensino a distância é utilizado em mais de 80 países», pois, neste caso, temos o substantivo distância inserido numa expressão adverbial equivalente a uma oração relativa adjectiva («que não é feito presencialmente»). Assim, além de semântica e sintacticamente possível, acresce que «a distância» não é termo corrente mas, sim, especializado, pertencente à terminologia do ensino: interpreta-se como transmissão e difusão da informação e do conhecimento ou auto-aprendizagem mediante recursos apresentados em diferentes suportes de informação.

Finalmente, embora seja comum utilizar-se «ensino à distância», certa tradição gramatical tem considerado que a crase só deve ocorrer quando a distância é determinada e especificada, exigindo neste caso a presença da preposição de: a) «Estamos à distância de dois metros da tua casa.»; b) «A casa à venda fica à distância de dez quilómetros da ponte.» (cf. Dicionário Houaiss).  No entanto, a crase tem-se generalizado aos casos em que se diz que não existe especificação, «[...] quando a sua falta comprometer de algum modo a clareza da frase: "a sentinela vigia à distância"» (idem; ver também Guia de Uso do Português de Maria Helena Moura Neves).

 

N.E.– Sobre este tema controverso, vide a opinião da professora Maria Regina Rocha, no texto Três razões para ser «à distância» (e não «a distância»)

Carla Viana/Carlos Rocha
Classe de Palavras: preposição
Áreas Linguísticas: Morfologia; Sintaxe