DÚVIDAS

Criação de palavras: "vicinalvo"
Gostaria de submeter à vossa análise uma reflexão sobre a ausência de um termo sintético na língua portuguesa para designar o elemento que sucede o próximo (o segundo em uma sequência, ou n+2). Atualmente, o falante recorre a perífrases como «sem ser nesta rua, a próxima» ou «na terça-feira da semana subsequente à próxima». Tais estruturas, embora gramaticalmente corretas, são imprecisas e onerosas em contextos de rapidez comunicativa, como na navegação assistida por GPS ou em agendamentos céleres. Nesse sentido, proponho o termo "vicinalvo" (ou "vicinalva"), formado pela aglutinação do latim vicinalis («vizinho») com o elemento alvo (objetivo/finalidade). A construção «Vire na direita vicinalva» ou «Marcaremos para a terça-feira vicinalva» parece preencher essa lacuna de forma precisa. Consulto esta equipa sobre a viabilidade morfológica desta proposta no sistema do português e se consideram que o termo preenche adequadamente essa 'janela lexical'. Existe algum arcaísmo ou termo já dicionarizado que cumpra essa função específica de saltar uma unidade para designar a seguinte? Desde já agradeço o vosso contributo para o esclarecimento desta questão. 
O verbo dizer com interrogativa indireta
Gostaria de ver uma dúvida relativa à classificação de uma oração subordinada substantiva esclarecida. Na frase «Ele não nos disse quanto ganhou», o meu primeiro pensamento seria classificá-la como oração subordinada substantiva completiva, seguindo a estrutura de substituir a oração subordinada por isso («Ele não nos disse [isso].»). No entanto, sabendo que as conjunções completivas são normalmente limitadas a que, se e para, seria mais correto classificá-la como relativa? E caso possa ser considerada completiva, qual seria o antecedente de quanto (uma vez que as relativas não têm antecedente)?
Reconhecimento com complemento nominal e adjunto nominal
Na frase, «O reconhecimento pelo professor da validade das respostas é fundamental.», a expressão «pelo professor» é adjunto adnominal do nome reconhecimento, já que indica o agente que exerce o sentido do nome, adicionando uma informação a ele? Por seu turno, «a validade das respostas» é complemento nominal de «reconhecimento»? Nesse caso, na colocação preferencial de termos sintáticos, há ordem de precedência entre esses termos? Em outras palavras, o complemento nominal preferencialmente precede o adjunto adnominal na colocação de termos na oração, quando possuem o mesmo referente? Caso a ordem importe, há necessidade de vírgula para marcar a colocação dos termos (adjunto adnominal ou complemento nominal) que divirja da ordem preferencial, resultando em termos vindo em posição anterior àquela em que deveriam estar? Por exemplo, se o complemento nominal preferencialmente deve vir antes do adjunto adnominal, quando possuírem o mesmo referente, então o certo seria «O reconhecimento, pelo professor, da validade das respostas é fundamental.»? Grato desde já.
Fazer causativo e elevação do objeto a sujeito
Bom ano a toda a equipa do Ciberdúvidas. A minha dúvida prende-se com a análise sintática e oracional da seguinte frase: «O amor fez o poeta sofrer.» Ora, se a frase fosse «O amor fez do poeta infeliz» teríamos um complemento oblíquo («do poeta») e um predicativo do complemento oblíquo («infeliz»). Se a frase fosse «O amor fez o poeta infeliz» teríamos um complemento direto («o poeta») e um predicativo do complemento direto («infeliz»). Agora neste caso que coloquei inicialmente («O amor fez o poeta sofrer») avanço duas hipóteses. A primeira é considerar «o poeta sofrer» uma oração substantiva completiva com a função sintática de complemento direto e nesse caso poderia ser toda substituída pelo pronome o: «O amor fê-lo.» No entanto, esta hipótese não me soa bem e por isso pergunto se é possível dizer «O amor fê-lo sofrer». Se for esta a opção correta, ou seja, assumindo «o poeta» como complemento direto, o constituinte «sofrer», sendo um verbo no infinitivo, continua a ser considerado predicativo do complemento direto? E se assim for como fazer a análise oracional da frase? Muito obrigado.
Estilo e voz passiva
Tenho notado um aumento no uso de construções passivas ou impessoais em comunicações formais, especialmente em contextos administrativos ou institucionais. Exemplos: – «Relativamente ao assunto XXX, questiona-se o motivo de serem comunicados zero incidentes», por uma Câmara Municipal; ou – «Mais se refere que do email do senhor condómino não se entende que ponto é que pretende ver esclarecido», por uma empresa gestora de condomínios. Este tipo de formulação parece-me uma coisa recente que não existia há alguns anos. As minhas dúvidas são: 1) Existe alguma razão gramatical, estilística ou até institucional para esta preferência por estruturas passivas ou impessoais? 2) Trata-se de uma tendência recente na língua portuguesa (de Portugal)? 3) Há vantagens específicas em termos de tom, neutralidade ou responsabilidade ao usar este tipo de construção? Agradeço desde já qualquer esclarecimento!
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa