DÚVIDAS

Criação de palavras: "vicinalvo"

Gostaria de submeter à vossa análise uma reflexão sobre a ausência de um termo sintético na língua portuguesa para designar o elemento que sucede o próximo (o segundo em uma sequência, ou n+2).

Atualmente, o falante recorre a perífrases como «sem ser nesta rua, a próxima» ou «na terça-feira da semana subsequente à próxima». Tais estruturas, embora gramaticalmente corretas, são imprecisas e onerosas em contextos de rapidez comunicativa, como na navegação assistida por GPS ou em agendamentos céleres. Nesse sentido, proponho o termo "vicinalvo" (ou "vicinalva"), formado pela aglutinação do latim vicinalis («vizinho») com o elemento alvo (objetivo/finalidade). A construção «Vire na direita vicinalva» ou «Marcaremos para a terça-feira vicinalva» parece preencher essa lacuna de forma precisa.

Consulto esta equipa sobre a viabilidade morfológica desta proposta no sistema do português e se consideram que o termo preenche adequadamente essa 'janela lexical'. Existe algum arcaísmo ou termo já dicionarizado que cumpra essa função específica de saltar uma unidade para designar a seguinte?

Desde já agradeço o vosso contributo para o esclarecimento desta questão. 

Resposta

A resposta depende do que se considera propriamente a "viabilidade" morfológica de uma forma criada. Proponho avaliar três aspectos dessa formação, com base nas informações trazidas pelo próprio consulente:

a) Um dos questionamentos é se essa forma preenche a "janela lexical" mencionada. A questão é que não parece haver de fato uma janela lexical; há uma outra maneira de expressar a mesma ideia de "em vez de (n+1), vá a (n+2)", que é a que o consulente menciona ("sem ser nesta, na próxima"). Então, não há uma janela; a questão é que não há uma palavra única que expresse essa ideia, o que não é, de modo algum, um problema, porque a língua dispõe de inúmeros mecanismos para reorganizar sentidos à sua maneira, com expressões complexas.

b) Por um lado, a forma "vicinalvo" é gramatical, no sentido de ser possível, porque não viola nenhuma lei interna de estrutura fonológica ou morfológica da língua portuguesa. Do ponto de vista semântico, ela também é gramatical, porque o sentido de (n+2) parece existir de maneira análoga. Temos a quadra (hoje, ontem, anteontem, trasanteontem), que, se pensarmos bem, é uma sequência do tipo (n, n-1, n-2, n-3), ou seja, esse tipo de significado em um item lexical único não parece uma novidade para o sistema linguístico.

c) Por outro lado, o consulente propõe que ela derive de um hibridismo entre vicinalis (latim) e alvo (vernacular). Fato é, porém, que o falante nativo não tem acesso a eventos diacrônicos de sua própria língua, ou seja, os falantes de português não sabem, habitualmente, que vicinalis significa «vizinho» em latim, motivo pelo qual "vicinalvo", embora possível, não remeteria ao sentido que foi proposto. Basicamente, qualquer pessoa que ouvisse essa palavra, perguntaria o seu significado, porque ele não pode ser deduzido facilmente.

d) Então, a "viabilidade" deve ser avaliada em dois sentidos. Do ponto de vista morfológico, ela não é icônica, no sentido de que seu significado não é transparente, fácil de deduzir. Contudo, fonológica e semanticamente, essa palavra é viável, ou seja, se ela conseguir ultrapassar as barreiras da inércia morfológica (Rocha, 2008)* e for usada correntemente por grupos sociais específicos, ela pode tornar-se institucionalizada e vernacular no futuro.

e) Sobre inércia morfológica e as barreiras para institucionalização de formação esporádica, recomendo a leitura do artigo "Essa palavra existe? E por que existe?", de nossa autoria.

* Rocha, L. C. de A. (2008). Estruturas morfológicas do português. São Paulo: WMF Martins.

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