DÚVIDAS

Uso da 2.ª pessoa do plural, novamente
Lamento, mas não é convincente a resposta de A. Caffé – que veio em socorro de João Carreira Bom – à minha consulta sob o título "Uso da 2.ª pessoa do plural, mais uma vez". Diz ele: "...o emprego da segunda pessoa do plural, na linguagem corrente do Brasil, afecta a identificação da pessoa que fala, ou seja, cria uma barreira entre o falante e o ouvinte ao indicar um domínio dos instrumentos de comunicação que o ouvinte não tem, por não o utilizar no seu cotidiano." Concordo em que o uso da segunda pessoa do plural, no Brasil, "afeta a identificação da pessoa que fala", mas jamais posso supor que afeta a compreensão da pessoa que ouve. Pois foi isto que João Carreira Bom afirmou, ressalvando que este fenômeno existe no Brasil, não em Portugal. Por outro lado, espero que A. Caffé não esteja insinuando que a generalidade dos ouvintes no Brasil não dominam um certo "instrumento de comunicação", no caso, o uso da segunda pessoa do plural. Há os que não o dominam (uma criança de 3 anos, por exemplo), e há os que o dominam (uma criança em fase escolar, aprendendo a conjugar os verbos). Obrigado.
«Assumirem a direcção da empresa para...»
Veja-se a seguinte frase: «Assumirem a direção da empresa para destruí-la foi o desejo inconfesso dos herdeiros». Como se analisa essa frase no que respeita à subordinação que ocorre entre as orações? Há uma oração principal, cujo predicado é «foi o desejo inconfesso dos herdeiros». A minha dúvida se prende a como se dá a subordinação das outras duas orações em relação à principal. «Assumirem a direção da empresa para destruí-la» são duas orações que, juntas, dão um sentido único: não é o simples fato de «assumirem a empresa» que «foi o desejo dos herdeiros», mas assumirem-na com o propósito de destruí-la. A meu ver, o período acima comporta-se em matéria de análise sintática diferentemente deste: "Assumirem a direção da empresa foi o desejo inconfesso dos herdeiros, para destruírem-na. Já, neste período, vemos claramente que uma oração funciona como sujeito e outra como adjunto adverbial, ambas subordinadas à principal. Gostaria, então, de saber como deve ser feita a análise do primeiro período. Obrigado.
Decorar: «memorizar» vs. «ornar»
Estava escrevendo um texto jurídico e precisei do substantivo cognato do verbo decorar (no sentido de «memorizar») e me deparei com decoração, que seria ali interpretado como «enfeitar» e poderia causar um grande mal-entendido, pois pareceria deboche. Poderia explicar a etimologia desta palavra e como tomou sentidos tão diversos? Sei que decorar («memorizar») vem do latim "de cor", por que acreditavam, à época, que o coração guardava as memórias, e que decorar («ornar») também vem do latim decorare, «pôr cor em algo». Mas como essas duas palavras caminharam para se tornar uma só, se têm sentidos tão opostos? E decoração poderia ser usado como substantivo cognato de decorar («memorizar») ou é defectivo neste sentido? Obrigado.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa