DÚVIDAS

Esto?
Estou a transcrever um texto do século XVII (1621), um arrendamento de um moinho de água salgada (moinho de maré) por 3 anos. O rendeiro tem de pagar um foro ao senhorio (19 alqueires de trigo) sendo o pagamento feito quinzenalmente, contando "em cada um dos ditos 3 anos 24 *estos* cumpridos e acabados". Mais adiante escreve-se "na qual quantia se vão montar os ditos 19 alqueires de pão cada *esto* de 15 dias". A mesma palavra aparece noutro arrendamento de moinho, no mesmo contexto, mas em outro tabelião e em 1646, aparentemente com o significado de *mês*: "pagar de renda do dito moinho 13 alqueires de trigo da terra cada *esto*, os quais ele será obrigado a lhe pagar aos meses". É a primeira vez que encontro este termo e embora tenha quase certeza de ter a leitura correcta, pode ser uma corruptela de outra palavra. Alguma sugestão?
Madame Bovary em português
Estava perguntando-me aqui o motivo de não haverem traduzido o título do livro de Gustave Flaubert Madame Bovary para "Dona Bovary". Vamos por partes. No Brasil podemos referir-nos a uma mulher desconhecida de X maneiras: 1) Senhora – tanto para velhas como novas. «A senhora irá à festa de Carlos.» «Que horas são, senhora?» Pode-se acrescentar o pronome possessivo minha para suavizar o solenidade. Se a mulher for casada ou a sogra, às vezes prefere-se usar dona. 2) Dona – sempre acompanhado do nome. «A dona Ivete morreu ontem, sabia?» «Dona Cleide, a senhor pode me fazer um favor?» 3) Madame, senhorita e senhorinha – de maneira mordaz, sarcástica. «Então quer dizer que a madame não gosta do que faço?» «Eu aqui trabalhando. E a senhorita aonde? A senhorita só na gandaia.» «E a senhorita quer tudo de mão beijada? Quer que lhe lave as roupas, que faça o café, o almoço, a janta?» Parece-me, de acordo com o uso no Brasil, o melhor seria "Dona Bovary".
Uma oração proporcional adverbial num texto de Machado de Assis
«Mas, se tudo isso era espantoso, não menos o era a luz, que não vinha de parte nenhuma, porque os lustres e castiçais estavam todos apagados; era como um luar, que ali penetrasse, sem que os olhos pudessem ver a lua; comparação tanto mais exata quanto que, se fosse realmente luar, teria deixado alguns lugares escuros, como ali acontecia, e foi num desses recantos que me refugiei.» O trecho acima foi pinçado do extraordinário conto "Entre Santos", do não menos extraordinário Machado de Assis (1839-1908). O período todo proporcionaria uma alentada aula de sintaxe, mas me atenho somente à oração «quanto que teria deixado lugares escuros». Como analisá-la sintaticamente? Muito obrigado.
Candango e pau-de-arara
Acessei esta página em Brasília (Brasil), cidade onde moro há tempo bastante para ter tido a oportunidade de conhecer alguns candangos que, se hoje já são falecidos, ainda recebem homenagens dignas dos heróis que enfrentaram os mais variados obstáculos e são lembrados com o mesmo respeito que lembramos dos fundadores de nossas outras cidades, como os Padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, que fundaram a cidade de São Paulo há 451 anos. Pois bem, navegando pela página, encontrei o texto "O linguajar uberabense", onde, com certo espanto, li: "(...) candangos (o nome por que são conhecidos os imigrantes pobres oriundos do Nordeste do Brasil)." Tal definição não corresponde ao termo "candango", mas sim ao termo "pau-de-arara". O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define "candango" como o "nome que designa cada um dos operários que trabalharam nas grandes construções da cidade de Brasília (DF), ger. oriundos do Nordeste do Brasil" e explica que, por extensão, significa, também, "cada um dos primeiros habitantes de Brasília" A definição apresentada por vocês aplica-se ao termo "pau-de-arara", que são caminhões que transportam os retirantes nordestinos e que, por extensão, passou a designar, aí sim, "os migrantes pobres do nordeste do país", que fogem da seca em grandes grupos, viajando nesses caminhões para outras regiões brasileiras, especialmente para a cidade de São Paulo. Uma bela canção, cantada por Luiz Gonzaga, conta, sobre essa realidade da fuga da seca pelo nordestino: "A terra aqui só é ruim, quando não chove no chão. Mas se chover dá de tudo, fartura tem de porção. Tomara que chova logo! Tomara, meu Deus! Tomara! Só deixo o meu cariri no último pau-de-arara". A propósito, cariri é um tipo de vegetação de caatinga, característica da região semi-árida do Nordeste brasileiro. Obrigada por sua atenção.
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