DÚVIDAS

A vírgula antes do pronome relativo cujo
Sou aluna de Comunicação Social. Há cerca de um mês fiz uma entrevista no âmbito da disciplina de Técnicas de Expressão Escrita. Uma das perguntas colocadas foi: «Como foi a adaptação a países cujos padrões culturais divergem claramente dos nossos?». Quando a entrevista me foi entregue (já corrigida), a docente havia acrescentado uma vírgula que me parece inoportuna: «Como foi a adaptação a países, cujos padrões culturais divergem claramente dos nossos?». Não me parece que a vírgula entre "países" e "cujos" seja adequada, mas a professora assegurou-mo. Será que me podem esclarecer? Desde já obrigada e parabéns por esta iniciativa!
Igualitário=equalitário
Estou a traduzir um livro de inglês para português. A dado passo, a autora escreve que irá fazer uma importante distinção entre as palavras "equalitarian" e "egalitarian", ambas as quais seriam normalmente traduzidas em português por "igualitário". A minha dúvida é: de modo a fazer-se a distinção pretendida pela autora, como será possível traduzir "equalitarian"? Vêm-me à mente palavras como "equalitário" ou "egalitário", mas receio tratar-se de neologismos inaceitáveis.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra
"Nem tanto ao mar, nem tanto à terra." É o que se diz às vezes sobre a escolha de um meio termo (ou "meio-termo", não sei se tem hífen ou não), em relação a um assunto qualquer. Imagino que seja um dito popular, se não for de autoria de algum escritor. Minhas dúvidas com relação a essa frase são estas: 1) Estaria correto o uso da vírgula depois de "mar"? Caso sim, poderia ser escrita a frase sem a vírgula também? Então, caso fosse facultativo o uso da vírgula, que razões levariam a escolher usá-la ou não? * A vírgula emprega-se, entre outros casos, em repetições de palavras que desempenham a mesma função, quando não estão ligadas pelas conjunções e, nem e ou. A frase popular «nem tanto ao mar nem tanto à terra» dispensa a vírgula, porque os seus dois membros estão ligados pela conjunção nem. Mas é frequente a expressividade da linguagem «exigir» a colocação de vírgula antes daquelas conjunções. Atente-se nesta frase de Miguel Torga em «Bichos»: «Mas afinal não caía, nem o ar lha faltava, nem coisíssima nenhuma». Caro consulente, os melhores escritores da nossa Língua abonam a vírgula antes de nem... por razões estilísticas. ** 2) Existiria crase antes de "terra"? Dizem que não existe no sentido oposto a mar e que existe no sentido de solo, mas não sei se, neste ditado, a palavra "terra" está no sentido de oposição a mar ou no sentido de solo mesmo. Inclino-me a empregar nesta frase, antes de terra, a preposição a contraída com o artigo A, ou seja, «À terra», por analogia com «ao (a o) mar»: fazendo um daqueles paralelismos formais de que as sentenças populares tanto se socorrem, quantas vezes em detrimento dos rigores semânticos. 3) Qual seria a análise sintática e morfológica da frase? Na frase «nem tanto ao mar nem tanto à terra», temos a ilustração do uso da figura de sintaxe chamada elipse, como processo estilístico adequado à enunciação rápida e concisa. A elipse é a omissão de termo(s) da oração que o contexto permite facilmente subentender: «vida difícil a nossa». Compreende-se que em provérbios, sentenças, divisas, se recorra frequentemente à elipse: «meu dito, meu feito», «Ano Novo, vida nova» etc. A nossa frase apresenta duas orações coordenadas disjuntivas, às quais faltam o sujeito e o verbo, que poderiam ser «nem vamos (nós subentendido) tanto ao mar nem vamos (idem) tanto à terra; ficamos no meio- termo». 4) E o "nem"? Li, certa vez, que "nem" é igual a "e não"; mas se o "nem" fosse substituído por "e não" em frases como esta, não faria sentido algum, penso eu leigamente. Se não for exagero, os senhores poderiam me dizer de quais formas é usada a palavra "NEM" e suas classificações sintáticas e morfológicas? Obrigado. Nem é sempre conjunção coordenativa, isto é, relaciona sempre duas orações coordenadas. Mas pode ser conjunção coordenativa copulativa, e nesse caso significa «e não»: «não sei nem quero saber de histórias» «não é permitido pescar nem nadar neste lago»; ou conjunção coordenativa disjuntiva, quando liga duas orações alternativas, como é o caso, por exemplo, da frase de que nos temos ocupado.
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