DÚVIDAS

Infinitivo flexionado: função desambiguadora ou enfática
Sabendo de antemão que o uso do infinitivo é um terreno pantanoso que requer cuidado para trilhar, atrevo-me a concordar com a posição da consulente Inês Pantaleão, em 17/5/2022. Em primeiro lugar, não creio que a frase apresentada por ela seja o caso típico de orações com sujeitos diferentes, a exemplo de «O professor mudou o método de ensino para os alunos aprenderem melhor». A referida oração («os antibióticos perderam eficácia devido à capacidade que as bactérias têm de lhes resistirem...») é um pouco diferente, devendo-se verificar a necessidade de flexão do infinitivo no âmbito somente da oração subordinada («as bactérias têm a capacidade de resistir aos antibióticos»). Para que flexioná-lo, se o sujeito é o mesmo? É frase semelhante a estas: «Todos tinham receio de enfrentar o tirano», «Nós vivemos da esperança de ver um mundo mais justo», «Não cobiçavam a glória de ficar em posição de destaque». Outras de estrutura diferente, mas com sujeito único, também não exigem flexão do infinitivo: "Eles quiseram estar presentes à cerimônia", "Esperamos construir a casa em seis meses". Nesse caso, vale a máxima de "Por que dizer com muito aquilo que pode ser dito com pouco?".
Verbos no conjuntivo combinados com verbos no indicativo
Tenho sempre dúvida em relação a tempos compostos do conjuntivo, em particular, à distinção entre o pretérito perfeito composto do conjuntivo (PPC) e pretérito mais-que-perfeito composto do conjuntivo (PMPC) nestas frases: (1) Embora ela já tenha saído/ tivesse saído há muito tempo, ainda não chegou a casa. (2) Embora ele o tivesse visto/ tenha visto, não o cumprimentou. (3) Embora o Jorge lá tenha ido/ tivesse ido várias vezes, perdeu-se no caminho. Diz-se no livro de gramática que o PMPC se usa para falar de uma ação anterior a outra também passada e que o PPC se usa para falar de uma ação já realizada em relação ao presente/ futuro. Nestes três exemplos, a oração matriz ocorre no Pretérito Perfeito do Indicativo e refere-se a uma ação do passado, e, assim, fiquei confusa com o emprego do PPC nesses exemplos. Em relação a (4), a frase subordinante ocorre no presente, enquanto a subordinada ocorre no PMPC (i.e., tivesse amado). Não sei porque a frase é correta. (4) A Maria duvida/ acredita que o Rio a tivesse amado. (Gramática da Língua Portuguesa 2003: 269) Obrigada!
Ser vs. estar (significado)
As gramáticas costumam explicar a diferença entre o verbo ser e estar, na sua função copulativa, através da análise da efemeridade das propriedades ou estados, sendo o verbo estar usado nos casos de maior efemeridade. Todas as exceções são vistas como desvios idiomáticos, de referência ou proporção. Parece-me, no entanto, que os seguintes exemplos, na sua expressão mais natural, mostram que não se trata tanto de uma questão de efemeridade ou transitoriedade, mas mais de uma questão de eventualidade ou contingência. «Este processo químico agora é exotérmico, mas em pouco tempo será endotérmico.» «Estes tipos de estrelas são azuis apenas dois segundos da sua vida.» «Um lado da lua está sempre oculto.» «Esta comida não é velha, mas está estragada.» Assim, a verdadeira distinção entre esses verbos só indireta e probabilisticamente tem a ver com a efemeridade ou transitoriedade.
«Ter a capacidade de» + infinitivo
Ouço com frequência, especialmente no telejornal, algo de que dou exemplo – «os antibióticos perderam eficácia devido à capacidade que as bactérias têm de lhes resistirem...» – quando, penso, deveriam dizer «devido à capacidade que as bactérias têm de lhes resistir». Num simples exercício para verificar a correção da mensagem: as bactérias têm capacidade de quê? – de resistir (aos antibióticos) e não de resistirem...
Irradiar no sentido de expulsar
Eu vejo frequentemente o uso de irradiar como sinónimo de «expulsar alguém ou algo». O Sol irradia calor e luz. Uma pessoa irradia boa disposição. Um projeto visa irradiar o gosto pela língua portuguesa. Até neste site já foi esclarecido uma vez que isso está correto porque supostamente significa «afastar» (de acordo com a Porto Editora). No entanto, a palavra irradiar vem de radiar, «emanar alguma coisa». Como tal, não faz sentido que seja usada com tal sentido. Seria muito estranho que uma palavra que significa tão claramente «espalhar» ou «propagar» tivesse o significado exatamente oposto de «acabar com algo, evitar que se propague». Erradicar, por outro lado, é claro. Significa «cortar algo pela raiz, eliminar alguma coisa para sempre», como «erradicar a pobreza ou uma doença». Neste sentido gostaria de esclarecer que expressão se encontra correta: – «Vamos irradiar a pessoa que nos causou tantos problemas.» – «Vamos erradicar a pessoa que nos causou tantos problemas.»
Pronome se com gerúndio: «Viajando-se»
Revisando o marketing da minha empresa, me deparei com o seguinte trecho: «O hiperespaço criado por Star Wars é uma dimensão alternativa que só pode ser alcançada viajando na velocidade da luz.» Eu corrigi para «... é uma dimensão que só pode ser alcançada viajando-se à velocidade da luz», mas fiquei com um peso na consciência, como se eu houvesse cometido um erro. Apresento outras circunstâncias que também me deixaram com dúvida: 2 – «O sucessor de um número natural é obtido somando (ou somando-se?) uma unidade a ele. Supondo (Supondo-se) que esse número natural é x, a soma entre seus 10 sucessores é:» 3 – «Representando (ou Representando-se) a situação na forma de diagrama, retira-se a interseção de cada conjunto e conclui-se que há 30 pessoas gostando apenas de pizza doce.» 4 – «Testando (ou Testando-se?) qualquer número inteiro no lugar de n, por exemplo 1, conclui-se que A é o conjunto dos números pares e B dos ímpares.» 5 – «Sabendo (ou Sabendo-se) as dimensões do cercado, basta obter o perímetro (2p) do retângulo de dimensões 20×25.» Devo dizer que coloquei a partícula se em todas. Cometi algum erro? Desde já agradeço.
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