DÚVIDAS

«Ser útil/impossível/agradável/grato» com pronomes oblíquos (Brasil)
Gostaria de esclarecer uma dúvida acerca do emprego do pronome se em construções com o verbo ser, especialmente quando este ocorre acompanhado de pronomes dativos. Encontrei ou elaborei exemplos como os seguintes: • São-se-nos úteis estas informações. • É-se-me impossível aceitar. • Foi-se-lhe agradável a visita. • É-se-nos hostil logo no primeiro dia de trabalho. • É-se-lhe grato por todos os anos de dedicação. Em contraste, parecem-me perfeitamente correntes e aceitas as construções sem se: • São-nos úteis estas informações. • É-me impossível aceitar. • Foi-lhe agradável a visita. • É-nos hostil logo no primeiro dia de trabalho. • É-lhe grato por todos os anos de dedicação. A minha dúvida é a seguinte: há fundamento gramatical para o emprego do pronome se nessas construções com o verbo ser? Caso esse emprego seja considerado correto, gostaria de saber: 1. Que valor sintático desempenha o se nesses exemplos (pronome apassivador, índice de indeterminação do sujeito, marcador impessoal ou outra função)? 2. Existem gramáticos ou obras de referência (tradicionais ou descritivas) que aceitem ou analisem esse tipo de construção? Caso a resposta seja negativa, pergunto ainda: 1. O uso de se nessas estruturas deve ser considerado simplesmente incorreto ou apenas não sancionado pela norma? 2. Haveria algum contexto histórico, dialetal, literário ou de evolução da língua em que tais construções possam ocorrer ou ser explicadas? 3. Como interpretar frases como «Quando se nos é grato, sentimos que o esforço valeu a pena.»? Nessa construção, o se é aceitável por integrar uma estrutura impessoal («é grato a alguém») ou continua sendo inadequado? Agradeço desde já pelos esclarecimentos e, se possível, pela indicação de bibliografia que trate especificamente desse tema.
Deslocação de constituinte frásico para evitar ambiguidade
Nesta frase, que é também um título, «ASAE instaura processos a navios-fábrica por falta de higiene no Algarve», percebo que se trata de uma acção inspectiva no Algarve, mas a leitura pode ser outra, a de que o problema é a falta de higiene no Algarve. O título não ficaria melhor, sem margem para dúvidas, se fosse escrito da seguinte forma: «ASAE, no Algarve, instaura processos a navios-fábrica por falta de higiene», ou «ASAE instaura processos a navios-fábrica, no Algarve, por falta de higiene»? Obrigado.
O relativo que e os pronomes pessoais átonos (Portugal)
Grato pelo serviço de excelência do qual tanto beneficiamos. Pergunto sobre a razão de se ter passado, em Portugal, a fazer uso comum da colocação pronominal como segue, que retiro de uma súmula de notícias de hoje do "Observador": «que nas últimas declarações mostrou-se como o Dono Disto Tudo». Tenho reparado que, mesmo em vídeos onde os protagonistas dizem com a formulação típica do português europeu, as legendas que surgem aparecem alteradas para a formulação que me faz enviar a questão. Está norma a alterar ou é utilização acrítica a partir da sintaxe do português do Brasil? Muito agradeço a Vossa estimada atenção. 
Ambiguidade de mais: «e mais jogou bola na vida»
 Li a seguinte manchete: «Neymar mostra rua no litoral de SP onde deu o 1° beijo e mais jogou bola na vida.» Algo soa estranho na frase. Creio que isso se dê por conta da ausência de um segundo onde antes de «mais jogou bola na vida». Gostaria de saber se a construção - como vai no jornal - está correta ou, caso não esteja, se há forma mais clara e agradável de escrevê-la. Obrigado.
A expressão «pedir emprestado»
É possível separar a expressão «Pedir emprestado»? «O Rui pediu emprestado o meu livro.», ou «O Rui pediu o meu livro emprestado / pediu-me o meu livro emprestado.»? «Ela pediu-nos emprestada a tenda de campismo.», ou ««Ela pediu-nos a tenda de campismo emprestada.»? «Ele pediu-nos emprestado o carro.», ou «Ele pediu-nos o carro emprestado.»? «Ela pediu-me emprestada a caneta.», ou «Ela pediu-me a caneta emprestada.»? Ambas possíveis? - género -? «Esqueces-te de devolver coisas que pedes emprestado», ou «Esqueces-te de devolver coisas que pedes emprestadas»? «Ela pediu-nos emprestado a tenda.», ou «Ela pediu-nos emprestada a tenda.»? Mais uma vez, os meus sinceros agradecimentos pelo vosso trabalho!
Orações relativas não canónicas: «aquilo que é...»
Tenho notado que há um hábito muito comum e cada vez mais generalizado de utilização da expressões «aquilo que é/daquilo que é/ aquilo que são/daquilo que são» principalmente em contexto de comentário televisivo. Exemplos: «[Aquilo que é] a origem do conflito…..», «A origem d[aquilo que é] a vida….», «Não sabemos [aquilo que são] as intenções do Presidente….», «Estamos a par [daquilo que é] o impacto desta guerra», «Estamos conscientes d[aquilo que é] a devastação provocada….». Poderíamos até complicar mais: «[Aquilo que é] a origem d[aquilo que é] este conflito». Todos estes «aquilo que é» são perfeitamente suprimíveis das respetivas frases: «A origem da vida…», «Não sabemos as intenções do Presidente», «Estamos a par do impacto desta guerra», «Estamos conscientes da devastação provocada». Penso que o recurso a esta irritante expressão se deve ao facto de constituir uma espécie de muleta de linguagem, no sentido de dar mais tempo ao orador para pensar no que vai dizer a seguir, o que se compreende (similarmente ao uso de outras muletas mais óbvias como “â” ou “portanto”), muleta essa perfeitamente dispensável. De qualquer modo gostaria de saber se semanticamente a expressão acrescenta algo (como uma espécie de focalização ou clivagem no sentido de destacar um dos elementos da frase) e gostaria também de saber como classificar essas orações do ponto de vista sintático. Para ilustrar, vejamos o caso concreto da seguinte frase simples: «A origem da vida é um mistério.» Transformando-a na seguinte frase complexa: «Aquilo que é a origem da vida é um mistério.» Ficamos com uma oração substantiva relativa sem antecedente (com a função de sujeito) seguida da respetiva subordinante? Ou, contrariamente, devemos assumir que continuamos perante uma frase simples que foi “complexificada” por um elemento discursivo redundante típico da oralidade? Por outro lado, parece-me que por vezes estas orações artificiais são substantivas completivas, noutros casos substantivas relativas, ou até ponho a hipótese de serem adjetivas relativas, mas sempre perfeitamente dispensáveis. Gostaria de ter a vossa preciosa ajuda para esta questão, aproveitando para desejar um bom início de terceiro período letivo a toda a equipa do Ciberdúvidas, a quem agradeço a paciência.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa