DÚVIDAS

Inefável e efável
A palavra inefável provém do latim ineffabilis, e, como já foi explicado no Ciberdúvidas, trata-se de um composto de origem erudita. Contudo, o latim possuía também effabilis, com o sentido de «que se pode exprimir por palavras». Curiosamente, o inglês conserva effable, proveniente do mesmo termo latino, embora hoje classificado como arcaísmo. Em português, "efável" não parece estar registado nos principais dicionários contemporâneos, embora se encontrem algumas ocorrências da palavra, sobretudo em textos filosóficos ou académicos. Terá "efável" chegado alguma vez a integrar efetivamente o léxico português, ainda que de forma rara ou efémera? E, independentemente disso, seria hoje aceitável recuperá-lo ou empregá-lo como antónimo de inefável, com o sentido original do latim effabilis, em contextos formais ou literários? Obrigado.
O aportuguesamento "calache" (pão)
A dúvida é antes orientada a um tema de transliteração. Um pão tradicional da Europa Oriental tem em vários países das redondezas nomes parecidos: kalach, kalács, калач. Não encontro fontes seguras sobre como esta palavra poderia ser incorporada a um texto em português - e uma vez que as opções "kolach" ou "kalach" não parecem harmonizar esteticamente com a nossa sonoridade lusófona, gostaria de uma orientação de como proceder neste caso (e, por extensão, outros parecidos). Me parece que "calache" serviria (buscando um remotíssimo precedente em "Críxena", para o deus hindu Krishna), mas à falta de registros do verbete, não quero incorrer em neologismos que, mesmo com licença poética, dificultem a compreensão. Algum norte a que me apontar?
Vírgula antes de que consecutivo
Tenho encontrado informação um pouco contraditória em relação a esta questão de virgulação (na construção «tão […] que»). «Foi um barulho tão forte que tive de tapar os ouvidos.» ou «Foi um barulho tão forte, que tive de tapar os ouvidos.» A vírgula é obrigatória, opcional ou não deverá ter vírgula sequer? Existem fontes que abordem este assunto em particular? Muito obrigado por toda a ajuda e por todo o vosso excelente trabalho.
Valor comparativo vs. orações comparativas
Boa tarde, prezados professores! No estudo das orações subordinadas, verifica-se que, regra geral, as adverbiais comparativas se posicionam à direita da subordinante. No entanto, admitindo que construções como «em relação ao seu irmão, o Pedro é mais inteligente» e «comparado ao seu irmão, o Pedro é mais inteligente» estejam correctas, o que justifica a anteposição da subordinada em relação à subordinante? Quanto à função sintáctica, serão modificadores da frase ou outra? Por outro lado, em comparativas como «sou mais inteligente do que o meu amigo» e «falo mais do que o meu pai» que funções sintacticas desempenham ambas? Grato pela atenção a ser dispensada. Victorino Abel
Correferência não anafórica: visitante e Gulliver
Num exame nacional de Português, considera-se que, no excerto abaixo, as palavras visitante e Gulliver contribuem para a coesão lexical por substituição. «Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos que surpreenderiam esse Gulliver antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura.» Gostaria que me esclarecessem porquê e se não poderia ser um caso de correferência não anafórica, uma vez que só o conhecimento extralinguístico nos permite reconhecer uma relação de sentido entre as duas palavras. Muito obrigado.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa