Discurso direto, ponto de exclamação e minúsculas
Tenho uma dúvida relativa à frase:
(1) – Não me apetece, Lucas! – Balbuciou Isabel com cara de enjoada.- Ainda tenho o azedume do pequeno-almoço entranhado na garganta.
Com um verbo de fala integrado, o Google diz que não se deve colocar maiúscula após exclamação num diálogo.
Embora a lógica pareça indicar que sim (porque há um ponto de exclamação), o Google diz que as regras de edição e pontuação em Portugal determinam o contrário, ou seja, que o verbo balbuciou tem de começar com letra minúscula.
Segundo essa revisão, o verbo balbuciar é um verbo de fala (dicendi). Portanto, sintaticamente, a frase (1) («– Não me apetece, Lucas! – balbuciou Isabel com cara de enjoada.») é o objeto direto do verbo balbuciar. Ou seja, a frase inteira funciona como um único bloco: «Isabel balbuciou enjoada.»
A minha dúvida pode até ser parva, mas como não sou portuguesa nativa, gostaria que me aclarassem essa regra. Afinal, após um sinal de exclamação ou interrogação, a frase seguinte não começa com maiúscula? Ou a normativa da minúscula só contempla os diálogos?
Desde já, aproveito para agradecer o vosso empenho tão altruísta em prol da língua portuguesa.
Votos de um excelente dia!
«A quem» entre orações
Quanto ao emprego do relativo quem, Napoleão Mendes de Almeida, em Gramática Metódica da Língua Portuguesa (GMLP), escreve na nota n.º 1.:
«[1] Quem pode ser objeto indireto do verbo antecedente e, ao mesmo tempo, sujeito do consequente (“Escrevo a quem me escreve”); [2] o que não pode ser é objeto direto e indireto ao mesmo tempo [Exemplos de Almeida que não seria possível: “*Premiaremos a quem couber melhor nota”] [3] nem objeto indireto de dois verbos que exigem preposições diferentes.»
Em "As funções sintáticas de quem II", que contém a resposta vossa a um consulente, vós destes como exemplo as seguintes frases:
«Disseram-me a quem telefonaste.»
Pergunto: Qual é a função sintática que quem exerce? Penso que tal relativo desempenha duas funções sintáticas, uma em relação à oração precedente e a outra em relação à oração sucessiva. Seria «a quem telefonaste» objeto direto de «disseram-me»?
Ou deveria seguir a ótica de Almeida e escrever «Disseram-me aquele a quem telefonaste»?
Ou poderia supor que há um objeto direto indefinido antes de «a quem»: «Disseram-me (a pessoa) a quem telefonaste»?
O mesmo se aplica à vossa frase «Descobri de quem fala o livro»?
Parece-me que as frases elaboradas por vós não vão de acordo com o que disse Almeida em [2], por isso gostaria eu de um parecer vosso quanto a isso.
No exemplo de Almeida em GMLP: «Premiaremos aquele a que couber melhor nota», qual é a função sintática de «aquele» e de «a que»?
Desde já, muito obrigado.
A função sintática de uma relativa restritiva
No segmento «considerando necessária “uma desaceleração interior” que permita dedicar atenção e memória às diferentes vozes», qual a função sintática de «que permita dedicar atenção e memória às diferentes vozes»?
Muito obrigada!
«Para eu» e «para mim»
Numa prova, colocam a seguinte questão:
«Assinale a alternativa em que o pronome pessoal de primeira pessoa está empregado conforme a norma padrão escrita, como em "...provando que eu era útil para eles e para mim" (linha 26).»
A) A semelhança entre eu e ele era desconcertante.
B) Era difícil para eu negar qualquer ajuda aos meus.
C) As pessoas não vinham até eu para me pedir ajuda.
D) A história serviu para eu refletir sobre minha atitude.
Estou na dúvida se as alternativas B e D estão corretas.
Com base em: B) «Era difícil para eu negar qualquer ajuda aos meus.»
O pronome eu deve ser usado quando funciona como sujeito de um verbo no infinitivo. Em «para eu negar», eu é o sujeito de negar; por isso, mim estaria errado.
Essa é a mesma lógica de «...para eu refletir...», citada no enunciado D?
Desde já agradeço!
Uso de ter em pedidos (anglicismo)
Queria saber se está correto em português usar a seguinte expressão para pedir um copo de água e/ou é um anglicismo
«Posso ter um copo de água?»
Obrigado.
«Se..., seria/era/é possível...»
Qual destas opções está correta?
1. Se o curso fosse muito difícil, seria possível que vocês não gostassem de continuar.
2. Se o curso fosse muito difícil, era possível que vocês não gostassem de continuar.
3. Se o curso fosse muito difícil, é possível que vocês não gostassem de continuar.
A ideia que tenho é que todas as formas estão corretas, sendo a primeira mais formal e as outras duas mais usadas na língua falada. Contudo, segundo a gramática, expressões impessoais como «É possível que» usam-se com o conjuntivo presente.
Não consegui encontrar exemplos de expressões impessoais no presente do indicativo que usassem depois o conjuntivo imperfeito. Muito obrigada pela ajuda!
O uso de «Viena de Áustria»
Nas minhas conversas com pessoas a partir, talvez, dos cinquenta anos, noto que usam regularmente o termo «Viena da Áustria» referir a capital austríaca.
É algo que não vejo dito pela minha própria geração (Z), pois dizem apenas Viena - mas pessoas um pouco mais velhas dizem essa versão extensa. Não usam isto para se referirem a qualquer outra capital, que eu saiba.
Suspeito que poderá ser para não causar confusão com Viana, e talvez tenha uma relação com Viana do Castelo, mas é estranho na mesma - especialmente a diferença entre as vogais.
Será isto real ou impressão minha, ou talvez um nicho geográfico ou mesmo pessoal, ou algo etário / cultural?
Agradeço desde já - ando curioso com esta dúvida há muito tempo. O vosso trabalho é inestimável!
A construção proporcional «quanto mais..., maior...»
Deparei-me com a seguinte construção, e minha curiosidade exacerbada não deixa passar as minúcias:
«Quanto mais rico for o seu vocabulário, maior será o poder de convencimento de suas idéias.»
O que me chamou a atenção foi a construção correlativa «quanto mais…maior», que deveras nunca vi abonada nem descrita em nenhuma fonte.
Será que se pode fazer uso dessa construção sem ofender a boa norma culta?
Obrigado.
Dois-pontos depois de travessão
Ao consultar algumas gramáticas normativas de língua portuguesa, encontrei orientações a respeito do emprego de sinais de pontuação após o travessão, quando esses sinais seriam necessários mesmo na ausência dele.
As explicações que encontrei, porém, referem-se à vírgula e, eventualmente, ao ponto e vírgula. Para ilustrar, Carlos Nougué, na Arte de Escrever Bem na Língua Portuguesa, observou: «Quando haveriam de coincidir um travessão e uma vírgula ou um ponto e vírgula, estes últimos podem ou omitir-se ou, como o preferimos decididamente por razões de clareza, usar-se depois daquele (e unido a ele)».
No entanto, fico me perguntando se os dois-pontos também podem ser empregados segundo essa mesma lógica, isto é, se podem aparecer após um travessão quando seriam necessários independentemente da intercalação. Considerem-se os seguintes exemplos:
> O problema – até então ignorado –: a ausência de critérios objetivos.
> A única alternativa viável – segundo os especialistas consultados –: reformular integralmente o projeto.
> A conclusão a que chegamos: não havia outra solução possível.
Em todos esses casos, os dois-pontos introduziriam uma especificação, explicação ou conclusão relativa ao segmento anterior, desempenhando, a meu ver, essa função independentemente da intercalação. Se esta fosse eliminada, os dois-pontos permaneceriam:
> O problema: a ausência de critérios objetivos.
> A única alternativa viável: reformular integralmente o projeto.
> A conclusão a que chegamos: não havia outra solução possível.
Parece-me, portanto, razoável supor, por analogia, que os dois-pontos também possam ser mantidos após o travessão.
Além disso, a supressão do travessão de fechamento poderia comprometer a clareza da construção, por tornar menos evidente o limite da intercalação e dificultar a identificação da estrutura sintática pretendida.
Assim, é possível empregar dois-pontos após um travessão em casos como os apresentados? Existe alguma gramática, manual de redação ou outra obra que trate expressamente dessa possibilidade, admitindo-a ou rejeitando-a?
Agradeço desde já pelo espaço e pelas eventuais contribuições!
Presente do conjuntivo: «talvez esteja»
Eu e o meu filho estamos num impasse. Ele disse a frase «talvez um dia eu estarei interessado», e eu corrigi para «talvez um dia eu esteja interessado».
Nenhum de nós acha que o outro esteja certo.
Podem tirar a dúvida?
Obrigada.
