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Viva o «futebolês»!

O "futebolês", ou seja, o futebol tal como o comentam em português alguns dos especialistas mais castiços da televisão que temos, merece ficar registado em letra de Imprensa, para que a tradição oral não se perca no ano 2000 e seguintes. Embora não seja possível ser exaustivo, tal a diversidade e a riqueza do vocabulário que todas as semanas sai do bestunto de vários peritos que comentam de viva voz o pontapé na bola que por cá se joga.

Convém que se saiba que já venho dos tempos em que mestre Alves dos Santos pontificava na RTP. O que significa que tenho acompanhado a evolução do "futebolês" ao longo das últimas quatro décadas. E é justo que se diga que a tão peculiar linguagem por ele utilizada é, hoje, uma brincadeira de amadores, se comparada com a panóplia de expressões vernáculas e a imaginação bem fértil dos actuais profissionais do verbo futebolístico.

Em Junho de 1994, comentando jogos do campeonato mundial disputado nos EUA, publiquei uma crónica no "Diário de Notícias", intitulada "Keké'iss'ó meu?!", na qual já me referia à notória evolução do "futebolês", sobretudo graças ao contributo de mestre Gabriel Alves, que então pontificava na RTP, quando na SIC já tinha despontado Jorge Perestrelo, cuja fama se devia, antes de mais, à expressão que escolhi para título dessa crónica.

Jorge Perestrelo era mais divertido, recorrendo a expressões banais mas engraçadas, do estilo «frango monumental», «soberbo chapéu», «meteu a cabeça onde outros não metem o pé», «foi ao homem e não à bola» (ou vice-versa), «virilidade não pode ser confundida com violência» e ainda outras mais ou menos patuscas. Além da celebérrima expressão «keké'iss'ó meu?» (o que é que é isso, ó "meu"?), a que ele recorria sempre que algum jogador fazia um disparate, não acertava com a bola ou acertava nas canelas do adversário.

Gabriel Alves era mais sisudo, preocupando-se, acima de tudo, com uma «leitura de jogo» tão intensa que as equipas em campo até pareciam bibliotecas itinerantes. Também se referia muito à «postura dos jogadores», de tal modo que o relvado até parecia um gigantesco aviário em que todos punham ovos (inclusive árbitros e juizes de linha). Em suma, a sua linguagem «ao nível» da «filosofia de jogo» incluía expressões tão circunspectas como «treino específico» e «concentração competitiva», «trabalho por sectores» e «bom índice de produção ofensiva», «futebol apoiado» e «gestão do resultado». Além da inevitável «mecanização» e dos «automatismos», da «jogada estudada» ou «de laboratório», dos «lances de bola parada» e dos «cruzamentos ao primeiro poste» ou «ao segundo poste», do «pontapé intencional», do «pontapé de ressalto» e dos «remates à queima», do «passe rasgado» e do «excelente pique», do «corredor central» e do «último terço do terreno», onde, regra geral, havia uma «floresta de pernas» e — é claro! — um «ponta-de-lança muito desamparado».

Digamos que, hoje, embora as inovações vocabulares não sejam muitas, esta linguagem se generalizou na razão directa do grande aumento de transmissões de jogos pelas televisões e da eclosão da Sport TV. É nesta, aliás, que tenho tido a oportunidade de apreciar, semanas a fio, a extraordinária riqueza de linguagem de mestre Bernardino Barros, sem dúvida uma autoridade em "futebolês". Julgo que a ele se devem expressões tão lapidares como "correr atrás" ou "ir em busca do prejuízo" — que é, julgo eu, aquilo que faz uma equipa que está a perder e se esforça por empatar ou ganhar o jogo. Mas a expressão mais deliciosa é, sem dúvida, aquela do jogador que não conseguiu "chutar com o pé com que sobe para o eléctrico" — que é, julgo eu, o que acontece quando um jogador se precipita e chuta com "o pé que tem mais à mão", falha o remate e não consegue "desfeitear" o guarda-redes.

De resto, é forçoso reconhecer que o comentador «bom de bola» tem de «decidir na hora» os comentários a fazer sobre o que se está a passar «dentro das quatro linhas». E é isso, «se calhar», que o faz ver um jogador «mexido» e «desequilibrador» a «aparecer solto» e a «bater a bola em arco e rasteira» num «lance corrido» em que a sua equipa conseguiu «sair a jogar».

Claro que, às vezes, há uma «entrada mais impetuosa» de um adversário que está a «fazer de polícia» e não gosta de «entregar o ouro ao bandido» e, então, resolve «cair em cima» ou «fazer uma tesoura por trás». Tudo depende do «ângulo de percepção», mas é muito frequente ver «a bola a ganhar velocidade» ou «a bola a perder-se» como se fosse um ser vivo, porque o jogador «não acreditou» e «deixou descair a bola» ou deixou-a «sobrar».

Expressões tão castiças e patuscas como «futebol aéreo», «bola bombeada», «pautar o jogo», «criar desequilíbrios», «tirar o cruzamento», «fazer a mancha», «servir de tampão», «colar aos centrais» ou «o chega para lá», fazem a glória do "futebolês" e a delícia de quem o ouve. É linguagem «muito puxada para os flancos», «bem espremida» e com «súbitas mudanças de velocidade» que gosta pouco do futebol «sem espaços» e «muito sofrido» que por cá se joga. E, como não quero «matar o jogo», só posso exclamar: Viva o "futebolês"!

Fonte

In "Record" do dia 5 de Janeiro de 2000.

Sobre o autor

Alfredo Barroso (Roma, 1945), licenciou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e é cronista, jornalista, ex-deputado e ex-secretário do Estado português. Enquanto homem ligado à política, teve uma ação importante no Partido Socialista, tendo sido um dos seus fundadores. Dedicou-se também à escrita editando algumas obras, nomeadamente Poemas Rudimentares (1978), A Televisão que Tempos (1995), Guerras Limpas (2005), A Crise da Esquerda Europeia (2012).