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Quando conservar não é oprimir

«A tese de que a exigência da norma-padrão constitui «violência simbólica» parte de uma premissa teórica sociologizante que reduz o ensino da língua a uma mera disputa de poder e dominação de classe.»

Sempre que se herda algo valioso, busca-se preservá-lo – a não ser que se despreze a herança.

Logo, todos nós somos conservadores em algum grau.

Por exemplo, quando você se preocupa com a conservação da sua casa, do seu carro, das suas roupas, dos seus alimentos, qual é o objetivo disso?

Simples. Preservar a integridade, a funcionalidade, a durabilidade, a utilidade dos bens.
Para quê? Para evitar a deterioração e o prejuízo, garantindo seu uso adequado e eficiente ao longo do tempo.

– E o que isso tem a ver com a língua portuguesa, Pestana?

Ora, conservar a língua herdada advinda dos textos escritos mais bem produzidos do nosso idioma, de que muito nos devemos orgulhar, é conservar o que ainda vive e pulsa e irradia, sem embalsamar o que já morreu. Mais do que um carro, uma casa, alimentos, tal conservação, tal zelo com o cultivo da língua é como uma relação pessoal, uma administração de um negócio, uma tradição jurídica ou uma herança musical, ou seja, implica cuidar da estrutura que nos garante coesão, clareza, função, continuidade, prestígio... sem fechar os olhos às adaptações que a vida presente exige.

O equilíbrio entre conservação e inovação acarreta não guardar tudo como se fosse relíquia intocável, nem sair tocando fogo no passado como se fosse problema a ser eliminado. Com efeito, é manter-se atento ao que pode ou deve mudar, desde que recorrente e estável, visando ao bom destilamento da tradição.

Quando conservar passa a ser visto como opressão

Como o equilíbrio é, muitas vezes, mais filho da tensão conflituosa do que da moderação ponderada, veja abaixo um trecho de uma importante linguista brasileira que reflete o pensamento majoritário dentro de boa parte da sociolinguística nacional:

«Não podemos ignorar, podemos aceitar ou não aceitar, que, no chamado mundo ocidental e cristão – não ousaria ultrapassar esses limites –, a instituição escolar tem sido um braço forte do Estado e da Igreja. Os verbos incisivos de Bourdieu e Passeron — "conservar, inculcar, consagrar" — para caracterizar a função objetiva da escola, têm toda procedência e o seu significado fica transparente quando pensamos na questão da língua materna na escola. O padrão [linguístico] idealizado e exigido, se não é uma "violência simbólica" para todos que a ela chegam — e isso variará, é certo, de sociedade para sociedade —, é violência para a maioria e assim tem sido ao longo da História.» (Rosa Virgínia Mattos e Silva, Contradições no Ensino de Português: a Língua que se Fala x a Língua que se Ensina, 2019 [1996]: 10)

Note que a ideia de conservar um padrão linguístico é tomada de partida não como herança, mas como algo necessariamente coercitivo e violento, por ser a ideia de conservação reinterpretada como um imposto e opressivo reacionarismo/purismo/anacronismo/elitismo/artificialismo/idealismo.

A escola é vista como instrumento de ensino e perpetuação de uma linguagem das elites, caracterizando-se como violência simbólica contra os alunos.

A tese de que a exigência da norma-padrão constitui «violência simbólica» parte de uma premissa teórica sociologizante que reduz o ensino da língua a uma mera disputa de poder e dominação de classe. Ao encarar a conservação da tradição escrita como instrumento opressor do Estado, essa perspectiva limitante confunde a necessária transmissão de um patrimônio cultural comum com a imposição ideológica de uma elite. A visão distorcida sobre a instituição escolar e sobre o ensino da norma-padrão ignora o papel civilizatório fundamental da escola, a saber: franquear ao aluno o acesso a um registro formal estabilizado que transcende as barreiras regionais e sociais, permitindo-lhe operar na esfera pública com um modelo linguístico compartilhado pelos indivíduos mais letrados da sociedade.

O que pretende, afinal, a gramática normativa?

Há muitas décadas, a litania de que a norma-padrão das gramáticas tradicionais é um projeto histórico e ideológico de conservação do statu quo se fomenta e se espalha no ambiente acadêmico da Linguística brasileira. Trata-se a norma-padrão das gramáticas tradicionais como um construto que não descreve o que existe, mas que prescreve um «dever ser» que se distancia da realidade dos usuários cultos da língua. Para Mattos e Silva, a fala desses usuários é que deveria constituir o modelo a partir do qual se descreveria o padrão de exemplaridade idiomática.

Só falta combinar com a realidade.

Afinal, qualquer indivíduo culto tende a falar e escrever de um jeito em situações informais, mas tende a falar e escrever de outro em situações formais.

Na sociolinguística brasileira, há um argumento falacioso que atribui à gramática tradicional o papel de legitimar exclusivamente uma única variedade (a culta tradicional) como "certa", estigmatizando as demais como "erradas" ou "defeituosas", acusando-a de gerar preconceito linguístico e exclusão social.

(E sabemos que muitos professores, entendendo mal o papel da gramática, e alguns gramáticos, tornando seus escritos letras de lei, merecem crítica legítima.)

Mas por que fazer da gramática tradicional o alvo do chicote no Pelourinho se o seu objetivo é bem mais modesto, como nos ensina Bechara em seu livro Ensino da gramática. Opressão? Liberdade?:

«A não consideração desses fatos e de outros, que os modernos linguistas vêm pondo em relevo, tem permitido certa crítica injusta à gramática escolar, que é vista como a descrição da própria língua em sua totalidade histórica, como a descrição do único uso possível da língua. O ensino dessa gramática escolar, normativa, é válido, como o ensino de uma modalidade "adquirida", que vem juntar-se (não contrapor-se imperativamente!) a outra, "transmitida", a modalidade coloquial ou familiar.»

E continua o mestre em seu texto "Que se entende por correção de linguagem?":

«É também o momento de se entender a verdadeira missão da gramática normativa e do corpus em que ela vai haurir seus preceitos. Erram os que supõem que a gramática normativa é o espelho da língua portuguesa em geral; seu intento é bem mais modesto: é apenas o conjunto de usos fixados pela tradição escrita culta dentro da língua comum, standard, tradição essa a que Eugenio Coseriu chama "língua exemplar".»

Em mais um texto ("Linguagem e educação linguística"), Bechara adverte:

«... vieram pela porta da própria linguística e se instalaram nas salas de aula de língua portuguesa esse privilegiamento do código oral em relação ao escrito e certa desatenção a normas estabelecidas pela tradição e conservadas ou recomendadas no uso do código escrito-padrão. Por isso, assistiu-se entre nós, na década de 1960, a um insurgimento contra o ensino da gramática em sala de aula; em vez de dotá-la de recursos e medidas que a tornassem um instrumento operativo e de maior resistência às críticas que justamente lhe eram endereçadas desde há séculos, resolveram muitos professores e até sistemas estaduais de ensino aboli-la, sem que trouxessem, à sala de aula, nenhum outro sucedâneo que, apesar das falhas, pudesse sustentar-se pelo espaço curto de uma única geração.»

Ainda se percebe o eco desse discurso antigramática – por sorte, lentamente mitigado pela percepção de que a tradição importa.

A tradição escrita e a realidade dos falantes

É evidente a existência de um distanciamento entre a fala informal e a escrita formal do brasileiro. Sem embargo, é preciso esclarecer: o papel da gramática normativa tradicional nunca foi refletir e recomendar por modelo a fala espontânea, mas sobretudo a escrita monitorada.

Ademais, essa tradição escrita também está ligada à transmissão de um patrimônio cultural entre gerações, materializado nos textos de nossos melhores escritores e intelectuais. Quem ignora essa dimensão reduz a língua à sua manifestação imediata, como se o presente pudesse prescindir de tudo aquilo que o tornou possível. A tradição, ainda que imiscuída de alterações pontuais, é algo inevitável.

É por isso que, na escrita formal desse mesmo cidadão brasileiro letrado contemporâneo, há uma proximidade evidente com a tradição gramatical, como se comprova aqui [Fernando Pestana,  O (Pseudo)Abismo entre a Norma Padrão Contida nas Gramáticas Normativas do Português e a Norma Culta Escrita do Português Brasileiro Contemporâneo, Universidade do Porto, 2023]; também aqui [Fernando Pestana, Norma Culta Inculta, Minotauro, 2026].

O problema real do Brasil, antes de tudo, sempre foi este: o analfabetismo histórico massivo; e hoje o analfabetismo funcional. Uma epidemia. Foi isso que fez e faz com que a norma escrita nunca tivesse e tenha sido verdadeiramente internalizada pela população; afinal, a democratização escolar dos anos 70/80 trouxe para a escola crianças cujos dialetos estavam muito distantes da norma-padrão, devido ao seu ínfimo grau de letramento. Os próprios professores, pertencentes a essas camadas mais populares e com baixo letramento (que quase não veem gramática nos cursos de Letras, aprendendo mal o seu ofício), colaboram para a gravidade da situação. Os dados com os níveis de alfabetismo funcional entre diplomados constatam isso.

Uma particularidade brasileira?

Agora (quase não se fala), mas vale dizer que o português brasileiro está longe de ser a única variedade idiomática com normas diferentes entre a fala e a escrita – em maior ou menor grau, as diferenças são evidentes noutras línguas de cultura, como o francês, o inglês, o espanhol, o alemão, o árabe...

Se a distância entre a fala espontânea e a escrita formal nunca foi exclusividade do português brasileiro, por que tratar a conservação de sua tradição escrita como uma anomalia, uma violência, uma cicatriz da colonização elitista?

Conservar é transmitir.

Enfim, uma língua não se conserva apenas naquilo que seus falantes dizem hoje, mas também naquilo que gerações de escritores, intelectuais e estudiosos construíram e nos legaram. Herança. Tradição. Riqueza.

Mas conservar é conservar tudo? Óbvio que não.

É reconhecer que a língua tem uma história, que produziu bens culturais de valor inestimável, e que temos o direito (e, em certa medida, o dever) de transmiti-los às próximas gerações, sem descurar que uma tradição viva admite mudanças.
O real oposto de conservar não é inovar. É perder.

Fonte

Artigo de opinião publicado pelo autor na sua página de Facebook em 30/10/2026 e aqui partilhado com a devida autorização. Na imagem, frontispício da primeira gramática da língua portuguesa impressa no Brasil, a Arte de Grammatica Portugueza (1816), de Inácio Felizardo Fortes.

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