Tropeções do discurso público, indigência vocabular, cavaqueira vs. bate-papo e o uso do hífen
1. A atualidade em Portugal, como noutros países europeus, continua marcada pela questão da habitação e pelos protestos das acampadas no centro do Porto e de Lisboa. Outros assuntos têm quase igual realce nos títulos, em especial, os da vida futebolística. E, em todas as áreas, a informação enche-se de declarações sempre traiçoeiras para as palavras ditas no calor do momento. Dos muitos tropeções linguísticos que inevitavelmente ocorrem, seja por simples lapso de processamento linguístico, seja por debilidades pessoais no domínio da norma-padrão, destaca-se, por exemplo, em 01/11/2026 (CMTV, 02h46), o de uma «situação muito divisória», em que o uso de divisória é óbvia impropriedade vocabular. Na verdade, se divisório significa sobretudo «o que delimita» (cf. dicionário da Academia das Ciências de Lisboa), então, para referir uma situação em que não existe consenso interno, há que procurar outras formulações, como sejam, uma «situação em que as opiniões se dividem» ou «um grande desencontro de opiniões/posições». Outro caso, este da área do desporto, é tema de mais apontamento no Pelourinho, em que a consultora Sara Mourato explica por que razão a perda de confiança se traduz numa «confiança diminuta», e não, como alguém declarou errando, a uma «confiança "diminutiva"».
Recorde-se um outro tropeção, ocorrido há mais tempo, em setembro de 2026, aquando do anúncio, pelo primeiro-ministro português, do suplemento para as pensões em dezembro de 2026: «"será-lhe" paga uma verba a título de suplemento extraordinário» (NOW, 17/09/2026, 17:38). A forma correta é ser-lhe-á, que apresenta um fenómeno bem característico do português, a mesóclise, realizada sempre que se conjuga um verbo pronominalmente no futuro do indicativo ou no condicional (ser-lhe-ia).
2. Em O Nosso Idioma, a linguista portuguesa Carla Marques e o gramático brasileiro Fernando Pestana, em amena cavaqueira ou agradável bate-papo, trocam impressões sobre fraseologias populares ora de Portugal ora do Brasil. Há sem dúvida diferenças, mas a convergência é praticamente total quando se trata da língua culta.
Cavaqueira e bate-papo, palavras sinónimas que significam «conversa descontraída (cf. dicionário da Academia das Ciências de Lisboa – ACL), são ambas conhecidas e usadas pelos falantes dos dois países, se bem que a primeira delas se afigure mais corrente em Portugal, enquanto a segunda seja bem característica do Brasil. Cavaqueira integra as expressões idiomáticas «estar na cavaqueira», «ficar na cavaqueira» e «pôr-se na cavaqueira» e parece ser extensão semântica de cavaqueira, «vendedora de cavacas», sem que haja uma explicação clara para a aceção de «conversa descontraída» (ver ACL). Pode imaginar-se que as cavaqueiras gostavam de falar com os compradores acerca de assuntos simples e quotidianos, mas é mera conjetura. Relativamente a bate-papo, é composto motivado por «bater um papo», sendo papo sinónimo de «troca de ideias» e provável uso metafórico, pois a palavra tem como aceção originária e básica a de «porção dilatada do esôfago das aves e insetos, us. para estocar temporariamente o alimento» (ver Dicionário Houaiss).
3. Voltando ao Pelourinho e à questão do cuidado a ter com as palavras, divulga-se um texto da professora universitária e escritora Dora Gago, que dedica uma crónica à rejeição dos livros, que conduz ao empobrecimento lexical.
4. Se, na botânica e na zoologia, os nomes compostos são hifenizados, mesmo os que têm elementos de ligação (ex., erva-da-fortuna, porquinho-da-índia), por que motivo a expressão «flor de cerejeira» não tem hífen? Esta é uma das 14 questões esclarecidas no Consultório entre 2 e 6 de novembro.
5. Quanto aos programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa, toda a informação se encontra na página principal bem como na rubrica Notícias.
