O uso do conjuntivo, a morte de José Mário Branco, o CILPE 2019 e os 10 anos da Cátedra de Português na Universidade Eduardo Modlane - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O uso do conjuntivo, a morte de José Mário Branco, o CILPE 2019 e os 10 anos da Cátedra de Português na Universidade Eduardo Modlane
O uso do conjuntivo, a morte de José Mário Branco, o CILPE 2019
e os 10 anos da Cátedra de Português na Universidade Eduardo Modlane
Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa 356

1. Os falantes nativos de português usam o conjuntivo sem grandes questionamentos, mas os estrangeiros que o aprendem já adultos nem sempre se sentem à vontade com as subtilezas do seu uso frásico. Por exemplo, quando se emprega o verbo esperar  para construir uma frase começada por «espero que...», que forma de conjuntivo deve figurar na oração que vem depois, em referência a algo já ocorrido: «espero que corresse bem», ou «espero que tenha corrido bem?» A resposta à questão faz parte da presente atualização do Consultório, onde também se dá conta de como confinamento, não sendo uma palavra assim tão rara, só recentemente encontrou registo  dicionarístico em Portugal. Comenta-se ainda a possibilidade de empregar alimentação no plural, isto é, como palavra contável, permitindo que a forma «alimentações» ocorra em certas frases; e revela-se que, afinal o predicativo do sujeito não aparece apenas associado ao verbo ser. Finalmente, uma velha e conhecida confusão, dicionarizada há praticamente duas décadas: a de empregar solarengo no sentido de «cheio de sol», ou seja, em lugar de soalheiro, vocábulo com tradição e pitoresco.

2. Morreu José Mário Branco (1942-2019), um dos maiores cantores de intervenção de Portugal, que, a par de José Afonso (1929-1987), Sérgio Godinho, Fausto e outros, marcou a transição política e cultural que, no país, culminou na rutura renovadora de 25 de abril de 1974. Explorando intensamente a dimensão política da música e do canto, mesmo em anos mais recentes, José Mário Branco definiu um percurso de coerência na defesa de ideias de justiça social e de igualdade. Foi sobretudo pela exigência e apuro da sua excecional obra musical que se distinguiu este autor, cujas letras – poemas próprios ou alheios* – revelam o peso que dava à palavra e um conhecimento profundo das virtualidades da língua portuguesa e dos seus usos literários ou não literários, eruditos ou mais populares. Desta aguda curiosidade pelos segredos do idioma materno e do fenómeno da linguagem em geral, é sintomático o facto de, já em idade bem madura – 64 anos –, José Mário Branco ter começado a estudar linguística na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sendo reconhecido como o melhor aluno do curso em 2006  (ver página dos respetivos Alumni). O seu génio polifacetado, abrangendo áreas  tão diversas  como o cinema e o teatro, deixa uma herança imensa – da obra como compositor, músico e intérprete à atividade como produtor, arranjador e mentor de novos talentos da música de raiz portuguesa, incluindo o fado e o cante alentejano. Ficam estes breves exemplos dos títulos das muitas canções deste legado que, além de já fazer parte da memória contemporânea de Portugal, manterá por muito tempo a capacidade crítica de alertar e inquietar consciências: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"; Qual é a tua ó meu?"; "Alerta"; "Cantiga do fogo e da terra "; "Ronda do soldadinho"; "Menina dos meus olhos"; "Fado da tristeza"; "Fado Penélope"; "Barca dos amantes"; "Quando eu for grande; "FMI"; "Queixa das almas censuradas",  "Mudar de vida", Dez canções que contam a história de uma voz que ficará para sempre "muito mais viva que morta". E, ainda, José Mário Branco mudou a música portuguesa e os portugueses + “José Mário Branco é marca de um grande apuro e exigência”.

* Alguns dos poetas musicados na discografia de José Mário Branco: D. Dinis (Cantigas de Amigo), Martim Codax, Nuno Fernandes Torneol, Airas Nunes, Pedro Eanes SolazLuís de Camões, Natália Correia, Alexandre O’Neill, Sophia de Mello Breyner, Antero de QuentalRuy Belo, Bertolt  Brecht, Manuela de Freitas, entre outros.

Fonte da imagem: "Morreu José Mário Branco", Blitz, 19/11/2019.

3. Em Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian acolhe em 21 e 22 de novembro p.f. a primeira edição da Conferência Internacional das Línguas Portuguesa e Espanhola (CILPE 2019), uma iniciativa da Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) que tem como objetivo geral abordar a situação das línguas portuguesa e espanhola com vista à sua maior promoção. O encontro procura assim contribuir para reforçar o bilinguismo e a internacionalização do português e do espanhol, em benefício das suas comunidades de falantes deste dois idiomas, as quais, no seu conjunto, envolvem 800 milhões de pessoas. Entre os oradores, contam-se figuras que têm intervindo em matéria de politica de língua, no âmbito da atividade do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), entre elas, o atual diretor-executivo desta entidade, Incanha Intumbo, e os seus mais recentes antecessores Marisa Guião de Mendonça (2014-2018) e Gilvan Müller de Oliveira (2010-2014), bem como a presidente do conselho científico do IILP, a linguista portuguesa Margarita Correia.

4. Falar da relação da língua portuguesa com diferentes regiões de Espanha arrasta inevitavelmente o tema dos laços linguísticos e históricos galego-portugueses. Registo, portanto, para duas notícias que dizem respeito à Galiza: o alerta feito pela Associação de Docentes de Português na Galiza (DPG), em 19/11/2019, para o preenchimento de vagas no ensino secundário com professores sem especialização na língua portuguesa, situação que pode pôr em causa a qualidade do ensino ministrado aos alunos galegos do referido nível de estudos; e a série de palestras que o tradutor e professor universitário Marco Neves vai proferir na Galiza, de 25 a 28/11/2019, sobre um livro de sua autoria que, do lado português, participa do relançamento do debate à volta da convergência (identidade?) e das divergências entre o português e o galego – trata-se de O Português e o Galego são a Mesma Língua?, publicado em 2019 pela editora galega Através (ler apresentação na Montra de Livros).

 5. Temas principais dos programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa:

– A comemoração dos 10 anos de criação da cátedra de Português Língua Segunda e Estrangeira, da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane vai ser assinalada com a exposição “Português de Moçambique no Caleidoscópio”, com a qual se pretende sensibilizar os visitantes para a imensa riqueza linguística de Moçambique. O programa Língua de Todos, transmitido pela RDP África na sexta-feira, dia 22 de novembro, pelas 13h20**, entrevista a professora Inês Machungo, curadora da exposição, sobre este aniversário e as atividades associadas.

– Começando por evocar a memória de José Mário Branco (ver mais acima), o programa Páginas de Português, emitido pela Antena 2, no domingo, 24 de novembro, pelas 12h30**, convida depois a professora Lúcia Vaz Pedro a falar de Camões Conseguiu Escrever Muito para Quem Só Tinha um Olho, um livro que reúne casos de erros reais em sala de aula, alguns hilariantes – como este: à pergunta «qual a função do apóstrofo?», o aluno responde que «os apóstrofos são os discípulos de Jesus e andavam sempre com ele».

 ** Ambos os programas são repetidos: o Língua de Todos, no sábado, dia 23 de novembro, depois do noticiário das 09h00, e o Páginas de Português no sábado seguinte, dia 30 de novembro, às 15h30. Hora oficial de Portugal continental,  ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aqui e aqui.