Camões Conseguiu Ver Muito Para Quem Só Tinha Um Olho… - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Camões Conseguiu Ver Muito Para Quem Só Tinha Um Olho…
E outras respostas disparatadas em aulas e testes de Português
Lúcia Vaz Pedro
Manuscrito, 2019 450   

«Professora, como é que que Camões conseguiu escrever tanto só com um olho?» foi uma das perguntas mais disparatadas relatadas por  Lúcia Vaz Pedro da sua experiência de mais de 25 anos de docência de Português e que justificam o tão expressivo título deste seu novo  livro (editora Manuscrito).

Com muitos, muitos mais casos de erros reais verdadeiramente hilariantes. Como, por exemplo, a uma pergunta da professora («Qual a função do apóstrofo?»), o aluno responde assim: «Os apóstrofos são os discípulos de Jesus e andavam sempre com ele» … Ou estoutra: «Faz um resumo da batalha de Aljubarrota, tendo em conta o episódionarrado em Os LusiadasResposta: «Pum-pum. Zás. Ui! Ai! Os portugueses deram cabo dos espanhóis.» Ou, ainda, no seguimento de uma  extrato de O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner. Pergunta: «Refere qual o tempo verbal predominante  no  parágrafo destacado.» Resposta do aluno: «O tempo deve ser frio, pois é noite de Natal.» Nada melhor do que humor da professora, no seu comentário: «Valha-me o Menino Jesus!» – seguido, depois da devida explicação sobre a confusão do aluno entre o tempo verbal em causa e o tempo meteorológico...

Partindo deste tipo de «situações passadas em sala de aula, nos testes ao longo do ano ou mesmo nos exames nacionais» – tão caricatos, muitas delas, quanto reveladoras do baixo nível de conhecimento da língua materna dos alunos envolvidos (do 7.º ao 12.º os abrangidos nesta obra) –, reside precisamente neste lado lúdico a novidade deste livro. E o que o diferencia de todos os que ultimamente têm sido publicados em Portugal, com a mesma temática.

«O objetivo – como esclarece a autora, logo na Introdução – é identificar, esclarecer e corrigir, utilizando o humor como forma de aprendizagem, para evitar que estes erros se repitam. […] Trata-se de um livro onde aprender é divertido, funcionando, simultaneamente, como uma reflexão sobre a língua materna. De modo a orientar com precisão e a conduzir à autonomia na compreensão e na produção escrita.»  

Estruturado em oito capítulos temáticos – sempre com a pergunta, a resposta do aluno e e correção/explicação da professora (não poucas vezes ilustrada com desenhos divertidíssimos…) –, o título de cada uma deles é, só por si, um achado do que pode ser o ensino do Português com um sorriso, e bem largo, nos lábios: "Quando as obras de leitura obrigatória confundem os alunos”, “A gramática pode ser dramática!”, “Quando conjugar um verbo é uma missão (quase) impossível… Mas ao alcance de todos!”, “Quando a escrita é um ‘bicho de sete cabeças’”, “Quando a pontuação é um quebra-cabeças”, “Quando as figuras de estilo têm nomes muito esquisitos” e “Quando o mau português complica as outras disciplinas”.

Só mesmo uma «apaixonada pela língua portuguesa», como Lúcia Vaz Pedro se confessa na suas palavras finais, dedicadas aos pais em geral e em homenagem aos seus colegas nessa galvanizante tarefa de criarem o hábito da leitura e o gosto pelo bem escrever dos mais jovens, podia dar-nos um livro assim.

 

Cf. Entrevista de Lúcia Vaz Pedro à SIC Notícias + «Os jovens escrevem cada vez pior»  + Ensinar... a rir

 

José Mário Costa