Conjuntivo, despoletar (de novo), transativismo, birra vs. enxovalho, sozinha e República
1. O conflito no Irão afeta todo o mundo, com previsões em alta para o preço dos combustíveis. O tema suscita enormes receios também em Portugal, e aventa-se a possibilidade de um racionamento, como se lê na síntese da entrevista concedida pelo presidente das Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes (cujo acrónimo é EPCOL) ao programa Consulta Pública da RTP Antena 1 em 30/09/2026: «Estivemos a consumir as poupanças. Temo que essas almofadas estão a esgotar-se.» É, portanto, de recear igualmente que o conjuntivo soçobre a breve trecho, substituído erroneamente pelo indicativo. Na verdade, depois de um verbo que exprime receio – é o que acontece com temer –, o modo verbal selecionado é o conjuntivo, pelo que a segunda frase da citação deveria apresentar a forma estejam. A frase correta é, pois, «temo que as almofadas estejam a esgotar-se».
A propósito das hesitações que atualmente os falantes de Portugal revelam no uso do conjuntivo, sugere-se a leitura da crónica que Miguel Esteves Cardoso assinou neste dia no jornal Público, com o título "A fuga dos conjuntivos". Consulte-se também a resposta da linguista Sónia Valente Rodrigues, "O conjuntivo em subordinadas completivas".
2. Registe-se uma situação curiosa, ocorrida durante a cerimónia de entrega do Prémio Gulbenkian para a Humanidade, em 23/09/2026. A dada altura, ouve-se o problemático verbo despoletar na mensagem enviada pelo presidente da República Portuguesa: «Depois de uma pandemia e perante problemas tão graves como os decorrentes das alterações climáticas, alguns países e líderes políticos despoletaram ou deixaram-se absorver por outras urgências geopolíticas, económicas ou sociais.» Na notícia sobre o evento, a Rádio Renascença (RR) foi diligente na correção: «... alguns países e líderes políticos espoletaram...» ("Alterações climáticas. Seguro critica países que "adiaram" luta, Merkel quer Ocidente 'mais humilde'", RR, 23/09/2026). É de lembrar que o Ciberdúvidas tem desaconselhado o emprego de despoletar com o significado de «fazer surgir de repente». Não obstante, ao longo dos anos, não tem deixado de partilhar outros juízos sobre este verbo, entre eles um bem fundamentado parecer de Vasco Graça Moura (1942-2014).
3. Dois novos artigos na rubrica O Nosso Idioma:
– O tema das pessoas trans foi discutido na Assembleia da República e, por isso, falou-se em transativismo. A consultora Sara Mourato analisa a palavra e comenta as suas conotações.
– Na cobertura jornalística da polémica que envolve Cristiano Ronaldo e o selecionador nacional, Jorge Jesus, são recorrentes palavras de censura como birra ou dramáticas como enxovalho. O consultor Carlos Rocha fala um pouco da etimologia destes vocábulos.
4. Fazer o Caminho de Santiago sozinha será o mesmo que fazê-lo em solidão? No Consultório, dá-se conta dos matizes semânticos que podem diferenciar os adjetivos sozinha e só, bem como se esclarecem outros tópicos, tratados nos últimos dias, de 28/09 a 02/10/2026.
5. Sobre os programas Língua de Todos e Páginas de Português, toda a informação se encontra disponível na página principal e nas Notícias.
6. Devido ao feriado de 5 de Outubro, que em Portugal comemora a Implantação da República, a próxima atualização fica agendada para 06/10. A respeito do vocábulo república, com ampla ressonância na história de Portugal, sugere-se a leitura das seguintes respostas e artigos: "Sobre o verbo implantar", "As palavras república e monarquia" e "'Viva a República' e 'vivà República'".
