"Despoletar", etc. - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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"Despoletar", etc.

A propósito do meu artigo de há duas semanas, alguns leitores exprimiram-me a sua discordância quanto ao sentido do termo "despoletar", por entenderem que ele significa "impedir uma explosão". Vejamos.

O termo "despoletar" surge registado, pela primeira vez, na 7.ª edição do dicionário da Porto Editora, que é de 1994. Antes disso, não vinha em nenhum dicionário.

No meu serviço militar sempre ouvi dizer que uma granada "despoletada" era uma granada a que tinha sido retirada a cavilha (que travava a espoleta) e se encontrava pronta a explodir. E que a expressão tem origem militar prova-o, desde logo, o próprio Dicionário da Academia, onde, para "deflagrar um mecanismo de explosão ou disparo", se exemplifica com "despoletar uma granada", o que o dicionarista não podia ter ido colher na linguagem civil.

"Espoletar" (termo que não vem no novo Dicionário) significa "pôr espoleta em", ou "colocar a espoleta no projéctil", operação que tem lugar na altura do fabrico do engenho explosivo e não necessariamente no momento da sua utilização. Quando alguém transporta uma granada, antes de a utilizar, nesse sentido ela já vai "espoletada", isto é, já leva a espoleta posta.

Se "despoletar" significasse qualquer coisa como tirar ou extrair a espoleta, não seria uma expressão tão corrente nos meios militares, por implicar uma acção altamente técnica e perigosa, que poria em sério risco a vida de quem a efectuasse... Se "despoletar" quisesse dizer travar a espoleta, então seria um puro absurdo, porque a espoleta já vem travada de fábrica. Mas entretanto "espoletar" também ganhou o significado de "armar" ou de "fazer com que a espoleta actue" (acepções que, aliás, nenhum dicionário regista).

Quando se analisou a morfologia de "despoletar", entendeu-se que a palavra é constituída pelo prefixo "des" seguido do verbo "espoletar".

Simplesmente, isto teria dado correntemente "desespoletar", à imagem de "desesperar", "desestimar", "desestorvar" ou "desestribar". É certo que Filinto usou "desfrear" por "desenfrear" e "desperança" por "desesperança", mas isso é um pretenso populismo. Aqui estamos perante um caso de uso corrente da palavra.

Ora nem sempre o prefixo "des" significa o contrário da acção que o verbo inicial exprime: por exemplo, em "descair" ou mesmo em "desferir". E "desfiar" é o mesmo que "esfiar", assim como "despelar" é o mesmo que "pelar", enquanto "desmaiar" é o mesmo que o arcaico "esmaiar" e "desperecer" ou "deperecer" não é propriamente o contrário de "perecer". Há casos em que o prefixo "des" tem uma função de mera intensificação expressiva, como em "desinfeliz" ou "desinquieto" (cfr. M. Paiva Boléo, Estudos de Linguística Portuguesa e Românica, Coimbra, 1974, I, p. 83).

Há um outro prefixo que correntemente traduz não tanto a ideia de acção contrária como a de movimento (em geral de cima para baixo) e que é o prefixo "de", como por exemplo em "descrever", ou "decair" ou "decrescer" (cfr. Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Edições João Sá da Costa, 9.ª edição, 1992, p. 85).

Tudo isto indicia não ser "despoletar" a acção contrária de "espoletar", mas sim, ou a mesma, por um processo de intensificação, ou uma outra acção que diz respeito à espoleta mas não contraria aquela: a de a fazer mover ou deslocar. De modo que "espoletar" e "despoletar" acabam a ter o mesmo significado...

Creio ser o prefixo "de" que entra na forma "despoletar": sempre a falar de granadas de mão, retirada a cavilha, neutraliza-se o sistema de travamento da espoleta, esta solta-se ou fica liberta e o mecanismo fica pronto para a deflagração. Talvez por contágio com a forma "descavilhar" (que também não vem no novo dicionário) ou mesmo "destravar", ou talvez por, na gíria, a espoleta ter sido mais ou menos identificada com a cavilha. No entanto, foi a solução de Edite Estrela que passou em 1994 para o dicionário da Porto Editora (Dificuldades da Língua Portuguesa, em "Falar melhor, Escrever melhor", Selecções do Reader's Digest, Lisboa, 1991, pp. 507-560). Aí se diz que o termo passou da linguagem militar para a comum, mas que o verbo foi substituído pelo seu antónimo, ou seja, que se passou a utilizar "despoletar" no sentido contrário ao que tinha e que seria o de "desarmar". E também que se trata do prefixo "des". O que, salvo o devido respeito e a muita consideração que o saber e a acção de Edite Estrela em prol da língua me merecem, não parece de acolher. Em todo o caso, o dicionário da Porto Editora inclui uma observação crítica de que um dos sentidos está errado.

O Dicionário da Academia dá os dois sentidos contraditórios e, independentemente da questão do verdadeiro significado, é manifestamente inaceitável que não faça qualquer observação crítica quanto àquele que deve reputar-se incorrecto.

Por tudo quanto vai dito, as razões dos leitores não me convencem. No entanto, se eu estiver errado, terei de fazer a minha palinódia (termo que, talvez por ser "camoniano", também não vem no novo Dicionário da Academia)...

Cf.: A espoleta e os seus derivados linguísticos

Fonte

Publicado no jornal português Diário de Notícias de 13 de Junho de 2001.

Sobre o autor

Escritor, poeta e tradutor português, natural do Porto (1942-2014). Foi presidente da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Com vasta obra publicada, tanto no ensaio, como na poesia e no romance, é ainda autor de muitas e renomadas traduções. Paralelamente, desenvolveu uma ampla intervenção pública como comentador e analista político.