A maioria dos leitores lerá (interpretará) a frase com o sentido de «sozinha, nunca sozinha», apreendendo o óbvio jogo de palavras entre sozinha e só (aparente sinonímia). O interesse, quando jogamos com o sentido destes dois vocábulos (sozinha e só), parece estar na intenção de alimentar uma aparente contradição, que se resolve quando chegamos à conclusão de que, afinal, as duas palavras, no contexto em causa, têm significados distintos: determinada pessoa decidiu fazer o Caminho de Santiago «sozinha» [sem companhia física, sem ter integrado um grupo ou sem conhecer ninguém que por ali estivesse], mas em nenhum momento do itinerário se sentiu «só» (sozinha), em nenhum momento sentiu a solidão porque, porventura, se terá sentido, sempre, emocional e espiritualmente, acompanhada/protegida por Deus. A frase, explora, portanto, a solidão física (fazer o Caminho de Santiago sozinha, sem companhia, sem integrar um grupo) e a solidão emocional (sentir-se isolada, desamparada).
Esta interpretação sairia reforçada com:
(1) a inserção da conjunção coordenativa adversativa mas – «Sozinha, mas nunca só.» –, que ajuda a ler os dois termos em contraste (opondo-se, não podem ser interpretados como sinónimos, afastando a ideia de estarmos perante uma frase contraditória e/ou ambígua).
(2) a separação mais expressiva dos dois momentos – «Parti sozinha, (mas) nunca estive só.» (a circunstância de ter partido sozinha nunca se traduziu em solidão). Também não me desagrada «Caminhei sozinha, mas nunca estive só.».
(3) a convocação da palavra solidão — «Sozinha, mas nunca em solidão.» ou «Sozinha no Caminho, nunca na solidão.» [neste caso, existe um paralelismo sintático interessante]. Sobressai o jogo entre «Caminho» (no sentido de percurso físico) vs. «solidão» (estado interior).