Sequências textuais prototípicas e géneros textuais

Gostaria de saber quais os tipos de discurso existentes para além do Discurso político, que faz parte do programa de 11.º ano. Será que podemos dizer que existe um discurso poético (no sentido de declamação de um poema), ou aquilo que existe são textos poéticos divididos nas suas respectivas categorias (épico, lírico...)? E um discurso publicitário existe? Quais as principais características?

Já agora, agradecia alguma bibliografia sobre o assunto que seja do vosso conhecimento.

Agradeço desde já a atenção dispensada!

Lisa Pinto Estudante Lisboa, Portugal 5K

1. Se consultar o programa de Português em vigor (Programa de Português 10.º, 11.º e 12.º anos – Cursos Científico-Humanísticos e Cursos Tecnológicos (2001/2002), encontra no domínio «Funcionamento da Língua», sob o tópico «Pragmática e Linguística Textual», o item «Tipologia textual/protótipos textuais».

1.1. O que se entende por «protótipos textuais»?
Esta classificação deriva das célebres propostas de classificação de seq{#u|ü}ências textuais prototípicas, do ling{#u|ü}ista francês Jean-Michel Adam (Les Textes: Types et prototypes, Paris, Nathan).

O que Adam diz, basicamente, é o seguinte: face à extrema diversidade da natureza dos discursos reais, efe{#c|}tivamente produzidos, na oralidade ou na escrita, é possível fazer o reconhecimento de um conjunto estável de características afe{#c|}tas a seq{#u|ü}ências textuais (agregados de frases ou parágrafos). As seq{#u|ü}ências textuais prototípicas (que no programa aparecem como «protótipos textuais) não são textos ou discursos reais ou empíricos, mas abstra{#c|}ções, ou seja, conjuntos de características no que toca aos diferentes modos de organização das frases em texto.

Consideram-se (apenas) seis seq{#u|ü}ências prototípicas (ou «protótipos textuais»):

– seq{#u|ü}ência narrativa: sucessão de acontecimentos; enredo, transformação; unidade temática; moralidade.
– seq{#u|ü}ência descritiva: designação/enumeração; localização; caracterização/qualificação.
– seq{#u|ü}ência dialogal: fórmulas de abertura; fórmulas de fechamento, pares adjacentes (de concordância/discordância).
– seq{#u|ü}ência argumentativa: argumento; conclusão; pressuposto
– seq{#u|ü}ência instrucional:verbos 3.ª pessoa do conjuntivo (ou no infinitivo, ou no presente do indicativo com sujeito nulo).
– seq{#u|ü}ência explicativa-expositiva: predominância do indicativo; pressuposto: o interlocutor não sabe X).

Os discursos reais a{#c|}tualizam uma ou várias destas seq{#u|ü}ências. Assim, por exemplo, o discurso publicitário apresenta geralmente uma seq{#u|ü}ência descritiva (em que se apresenta o produto) e uma seq{#u|ü}ência argumentativa (em que se induz o receptor a aderir a um dado produto).
Vejamos a questão pela perspe{#c|}tiva inversa: a seq{#u|ü}ência argumentativa está presente no discurso político, no sermão, no artigo de opinião, no debate, etc., a par de outras seq{#u|ü}ências; a seq{#u|ü}ência dialogal está presente na entrevista de imprensa, na a{#c|}ta de uma reunião de trabalho, no diálogo das personagens de uma obra de ficção, etc., a par de outras seq{#u|ü}ências.

1.2. Voltando ao programa de português: nas secções «compreensão oral», «expressão oral», «expressão escrita», são visados g{#é|ê}neros textuais.
O que se entende por g{#é|ê}neros (e subg{#é|ê}neros) textuais? Trata-se, grosso modo, de "arrumações" de discursos reais, sob muitos e diversificados critérios/pontos de vista: estatuto dos interlocutores, circunstâncias de produção, suporte de transmissão, feição institucional, tema/estética, dimensão, etc.

Na Antig{#u|ü}idade eram considerados o g{#é|ê}nero épico, lírico e dramático. A retórica grega considerava o g{#é|ê}nero deliberativo, o judicial e o epidíctico. Na tradição literária é consensual considerar-se a poesia, o teatro, o romance e o ensaio. Mas, se olharmos para os subg{#é|ê}neros, então temos a poesia lírica e a épica; na poesia lírica temos o soneto, a ode, a balada, o madrigal, etc; já o romance pode ser realista, naturalista, surrealista ou romance histórico, autobiográfico ou fantástico. Fora do âmbito da literatura, a diversidade não é menor: há o relatório, a conferência, a receita, o regulamento, o contrato, o relatório, a bula de medicamento, as instruções dos ele{#c|}trodomésticos; há o texto jornalístico, que alberga a notícia, a reportagem, a entrevista, o editorial, o fait divers, etc.

2. Sobre o discurso/texto publicitário:

– Obje{#c|}tivo: levar o ouvinte/leitor a tomar um determinado comportamento ou a modificar a sua maneira de pensar.
Categorias: comercial (promover vendas); institucional (sem fins lucrativos)
– Meios de difusão: papel, audiovisual, Internet, etc.
– Partes:(i) slogan (enunciado que incita dire{#c|}tamente o cumprimento da a{#c|}ção que se quer incutir); (ii) seq{#u|ü}ência explicativa e/ou argumentativa (momento em que se faz uma apresentação mais ou menos pormenorizada das vantagens de aquisição de um produto ou realização de uma acção).
– Requisitos para uma publicidade bem sucedida: simplicidade; repetição; vivacidade; contig{#u|ü}idade (associações de ideias); contágio (promover a imitação através do recurso ao testemunho de uma figura pública/celebridade).

3. Bibliografia (em português):

MAINGUENEAU, Dominique 1997 – Os Termos-Chave da Análise do Discurso, Gradiva
PINTO, Alexandra Guedes 1997 – Publicidade. um Discurso de Sedução, Porto Editora
MARTINS, Ana 2008 – Gramática Aplicada, Porto Editora (pp. 182 - 197).
COUTINHO, Maria Antónia 2007 – Descrever géneros de textos. Resistências e estratégias

Ana Martins
Tema: Pragmática