DÚVIDAS

«Que morreu D. Sebastião» (Mensagem, Fernando Pessoa): análise sintática

Os dois últimos versos do poema “O Quinto Império” do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, suscitam-me algumas dúvidas, tanto semântica como sintaticamente.

Ora, os dois versos são:

«Quem vem viver a verdade/Que morreu D.Sebastião?»

Por seu turno os versos anteriores desta quintilha são:

«Grécia, Roma, Cristandade, /Europa – os quatro se vão/ Para onde vai toda a idade»

Achei curiosa a musicalidade do verso «Quem vem viver a verdade», que junta a assonância do e e a aliteração do v.

Contudo, a minha dúvida prende-se com a classificação da oração «Que morreu D.Sebastião».

Terá um valor restritivo (que tipo de verdade é essa: a verdade que é [consiste no facto de] ter morrido D.Sebastião/ o facto que é ter morrido D.Sebastião), ou de complemento (que facto é caraterizado como verdadeiro, ou seja:«É verdade que morreu D.Sebastião/ Que morreu D.Sebastião é a verdade»), ou de explicação (o motivo do apelo para viver a verdade [do quinto império] é a constatação da morte física de D.Sebastião, ou seja: «quem vem viver a verdade, já que morreu D.Sebastião»)?

Assim, a oração em causa será adjetiva relativa restritiva, substantiva completiva, ou coordenada explicativa?

Ainda assim, nenhuma das hipóteses que avancei parece ser inteiramente coerente com o sentido global do poema e da obra. O contexto é o da crença na perenidade do espírito de D. Sebastião, apesar da sua morte física em Alcácer Quibir, e na necessidade de fundar o tal quinto império, posto que os outros quatro já terminaram.

Talvez nos queira transmitir o poeta que devemos assumir a morte física do Rei para acreditarmos na sua presença espiritual?

Bem sei que a poesia dá azo a uma grande maleabilidade semântica e sintática, mas gostaria de ter a vossa opinião.

Parabéns a toda a equipa do Ciberdúvidas pelo vosso excelente trabalho.

Resposta

O sujeito poético, na última estrofe do poema “O Quinto Império”, da obra Mensagem, dá-nos conta de que os quatro impérios — Grécia, Roma, o Império Cristão e a Europa — acabaram («se vão», v. 2), pois tudo acaba com o tempo («Para onde vai toda a idade», v. 3). 
A pergunta retórica que o “eu” lírico formula nos dois últimos versos, sob a forma de desafio, de exortação, é a assunção de que existe um novo império, o da «verdade» transformada em símbolo, a «verdade» que podemos entender como o Império da Verdade, ou seja, o «Quinto Império» (título do poema) a que presidirá D. Sebastião (não o homem, em carne e osso, mas o mito [do sebastianismo], cuja essência vive em cada um dos portugueses).

Depois desta prévia explicação, é possível entender a oração «Que morreu D. Sebastião» das seguintes duas formas:

(1) Oração coordenada explicativa

[Afinal] Quem [é que] vem viver a verdade, [afinal] Quem [é que aceita o desafio de] viver a verdade, pois (= «que») morreu D. Sebastião?

ou

(2) Oração subordinada substantiva completiva (com a função sintática de complemento do nome «verdade»)

[Afinal] Quem [é que] vem viver a verdade, [afinal] Quem [é que aceita o desafio] de viver a verdade [de] que morreu D. Sebastião?

O consulente faz uma análise interessante e, de facto, uma prévia análise semântica, neste caso particular, faz todo o sentido. Não podemos, porém, fugir da estrutura sintática que ali existe, pese embora o facto de a tentação de imaginarmos outras estruturas, que não existem nestes dois versos, seja uma realidade. Das duas hipóteses de resposta para a dúvida apresentada pelo consulente, confesso que, apesar de ambas serem sintaticamente possíveis, prefiro a da coordenada explicativa.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa