«Passar à peluda» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Passar à peluda»

Na vida militar quando se passava à disponibilidade (terminava o serviço militar) era referido como «passar à peluda». É conhecida a origem desta expressão?

Virgílio Pena da Costa Economista Lisboa, Portugal 2K

Peluda é um termo da linguagem popular com o significado de «vida de paisano*», usado na gíria militar com esse preciso sentido: o regresso à vida civil, cumpridos que foram os anos de tropa.

Como o termo se formou da palavra peludo – entre outras aceções, querendo dizer o mesmo, também, que cabeludo –, é uma hipótese que a expressão «passar à peluda» tenha que ver com o corte de cabelo dos disponibilizados do serviço militar, nomeadamente as praças ou soldados sem patente **.

São eles, ainda os mais veteranos dão o tratamento de “maçaricos”, a  quem, logo na recruta,  o regulamento militar obriga a levar uma “carecada” – outro termo da gíria dos quartéis –, usando doravante, sempre, o cabelo curto.

Com o seu regresso à vida civil  – passando, portanto,  à Reserva de Disponibilidade, na terminologia militar – poderão, então, voltar a deixar crescer o cabelo. Daí, presumivelmente, a origem da expressão «passar à peluda».

Outra aventada explicação, menos plausível e igualmente sem validação bibliográfica, é de natureza sexual. Como na linguagem mais brejeira, corrente nos quartéis, «a peluda» está associada ao sexo das mulheres, «ir para a peluda» equivaleria a «ir para o gozo da boa vida».

* Paisano (do francês paysan, «camponês») = indivíduo que não é militar [in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 2002].

** Lembra o coronel Carlos Matos Gomes – a quem agradeço os preciosos contributos para este esclarecimento –, desde o final do século XIX que é obrigatório nas Forças Armadas Portuguesas o uso do cabelo curto para as praças, mas não para os oficiais.

José Mário Costa
Tema: Etimologia Classe de Palavras: locução
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto; Léxico Campos Linguísticos: Expressões idiomáticas