Parassíntese e o verbo aproximar
Sobre a parassíntese, o verbo aproximar poderá ser um caso desse processo de formação?
Obrigado.
Sobre a parassíntese, o verbo aproximar poderá ser um caso desse processo de formação?
Obrigado.
A palavra aproximar é formada por parassíntese (ver nota1 sobre a terminologia), porque é formada pela anexação de um afixo descontínuo: próximo (adj.) + [a-X-ar] > a-proxim-ar (v.). Isso se verifica pela inexistência das formas *apróximo ou *proximar (consultar o Voc, por exemplo).
Fato é que aproximar passou por parassíntese (e não por prefixação ou sufixação) porque os dois afixos (o prefixo a- e o sufixo -ar) foram adicionados simultaneamente, e não em etapas. Comparem-se as derivações abaixo:
(1) construir > desconstruir > desconstrução
(2) pagar > pagável > impagável
(3) próximo > aproximar (próximo > *apróximo, próximo > *proximar)
Perceba que, no caso de "desconstrução" e "impaǵavel", cada afixo foi inserido no seu respectivo estágio, criando uma nova palavra a cada estágio: "construir" forma "desconstruir", que por sua vez forma "desconstrução". Não é possível analisar "aproximar" a partir de "próximo" com esse processo 'etapizado'. Portanto, dizemos que seus afixos foram adicionados simultaneamente, em um único estágio, processo denominado circunfixação.
Em geral, a parassíntese é formada por uma base nominal/adjetival e deriva produtos adjetivais/verbais, o que parece corresponder ao caso em apreço: próximo (adj.) > aproximar (v.), como em louco (adj.) > enlouquecer (v.).
1 O termo "parassíntese" é relativamente instável. Alguns autores consideram que esse termo é impreciso, porque "parassíntese" pode abarcar tanto os casos de anexação sequencial de afixos (como em (1) e (2)) quanto de anexação simultânea (como em (3)) (ver, por exemplo, "Gramática Derivacional do Português" de Graça Rio-Torto); nesse caso, a parassíntese exclusivamente simultânea recebe o nome de "circunfixação". Por outro lado, tradicionalmente se acredita que tanto parassíntese quanto circunfixação sejam casos de anexação única de afixo. Nesse caso, a parassíntese ocorre quando a parte à esquerda e à direita são afixos legítimos na língua, e é isso que de fato ocorre em português. Note-se que, na formação de "aproximar", 'a-' e '-ar' são um prefixo e um sufixo existentes na língua de modo independente: [a-] + chegar > achegar, arma + [-ar] > armar. Na circunfixação, a parte à esquerda e à direita não podem ser isoladas na língua. Um exemplo de circunfixação legítima é do alemão, em que o morfema de particípio passado é [ge-X-t] ou [ge-X-en], de modo que 'ge-', '-t' ou '-en' não são afixos independentes na língua. Por exemplo: 'lernen' (aprender) > 'ge-lern-t' (aprendido).