DÚVIDAS

O advérbio sequer no português vicentino (séc. XVI)

Gostaria de saber como se deve interpretar a afirmação da Ama em Auto da Índia:

«Mostra-me essa roca cá:/ siquer fiarei um fio. »

Trata-se de uma expressão de aceitação da tarefa de fiar ou de uma rejeição?

Grata pelo esclarecimento.

Resposta

Trata-se plausivelmente de uma expressão de aceitação da tarefa, com o significado de «pelo menos».

Observe-se que o  Auto da Índia, de Gil Vicente, data de 1509, e, no começo do século XVI e mesmo mais tarde, é bem provável que a palavra tivesse os mesmos significados que o Dicionário da Língua Medieval Portuguesa (DLMP)1 lhe atribui, a saber, «pelo menos», «até mesmo» «nem sequer» e «ainda». A mesma fonte regista várias abonações de sequer e da variante siquer, tendo sobretudo interesse as que datam do século XV, mais próximas, portanto, da época em que foi elaborada a famosa farsa vicentina. São exemplos (mantém-se a grafia e a morfologia apresentadas no DLMP; o sublinhado é nosso):

(1) «estes quiriam aver por papa o cardeall de Pictavia ou sequer [«pelo menos»] o cardeall de Biveiro, que he em França, que era da sua parte delles» (Fernão Lopes, Crónica de Dom Fernando, c. 1440-1450)

(2) «e ante que disto façamos meençom, nom se agravem vossas orelhas douvir em breve rrecontamento algũu pouco de seus geitos e manhas, sequer [«até mesmo»] por honrra de sua pessoa» (ibidem)

(3) «doutro modo, emtrando em Portugall com vosso poderio, nom podees escusar fazer dapno na terra, sequer [= «nem sequer»] ao menos no tomar das viamdas, por a quall rrazom creçeria gramde hodio amtre os Portugueses e os Castellãos, que nom era vosso serviço» (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 1.ª parte, c. 1450)

(4) e perdoẽ-me aquelles que llerẽ esta estoria se lhes pareçer que errey ẽ escrever esto que jaa disse, porque certamente a mỹ que nõ fora bẽ a memoria de tam bõo homẽ nõ ficar viva, sequer [= «ainda»] ao menos ẽ estas poucas pallavras, porque em meus dia, aymda que pequeno fosse, ouvi os bõs feitos deste homẽ (Gomes Eanes de Zurara, Crónica de D. Pedro de Meneses, 1458-1464) 

Atendendo aos exemplos acima, o uso atestado em (1), equivalente a «pelo menos», afigura-se semelhante ao que ocorre na fala da personagem da Ama, que, nada pesarosa da partida do marido, mas sentindo-se sozinha, se dedica à tarefa de fiar. Esta atividade surge como uma espécie de último recurso, até porque, como logo depois ela manifesta com acrimónia, o marido a deixou «sem ceitil», isto é, sem dinheiro (ou como se costuma dizer coloquialmente, «sem um tostão»).

Na contemporaneidade, mesmo no âmbito de publicações escolares de textos vicentinos, aceita-se que na referida passagem do Auto da Índia, sequer ou siquer ocorram na aceção de «pelo menos», como é o caso de Maria Ema Tarracha Ferreira, que na sua Antologia Literária Comentada, anota: «siquer: o mesmo que sequer, pelo menos»2.

1 João Malaca Casteleiro et alii, Dicionário da Língua Portuguesa Medieval, 2022.

2 Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada, 1983, p. 169, linha 16.

 

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