DÚVIDAS

a começar oração

Tenho visto muitas vezes a palavra  usada em início de oração de uma forma que me parece inadequada, mas gostaria de saber se tenho razão nesta interpretação.

Para mim,  em início de oração introduz uma oposição relativamente à oração anterior. Por exemplo, se eu disser «O autor A escreve romances, já o autor B escreve poesia», esta frase é lógica. Mas se eu disser: «O autor português A escreve em inglês, já o autor português B escreve numa língua estrangeira», esta frase não tem sentido (não há nenhuma oposição entre as duas orações).

No entanto, constato que  é muitas vezes usado em início de oração, como nos exemplos dados, apenas para introduzir uma informação nova ou complementar, sem que haja nenhuma oposição entre a primeira e a segunda oração.

É este uso correto?

Resposta

É possível usar o advérbio tanto no interior de uma frase como em início de frase.

Entre outros usos de natureza temporal, o advérbio pode ser usado para estabelecer um contraste entre estados de coisas, como se verifica em (1):

(1) «O João foi à praia, já a Maria preferiu ficar em casa.»

Este mesmo valor pode ser estabelecido entre duas frases autónomas, sendo a conexão entre elas sinalizada por , que ativa a inferência de relação contrastiva entre as realidades descritas em cada uma das frases. Deste modo, a frase (2) é possível:

(2) «O João foi à praia e aproveitou o dia para descansar. Já a Maria preferiu ficar em casa porque detesta areia e muita agitação.»

Este uso tem registos vários no Corpus do Português, de Mark Davies. Deixamos alguns exemplos:

(3) «E foi Natalino que se voltou primeiro, como a abrir caminho para Ana Dulce. Já a Zulmira havia tornado à varanda.» (Josué Montello, A Noite sobre Alcântara. 1978)

(4) «Laurindo meteu o envelope no bolso, confirmando que a mãe tinha mesmo uma letra linda. Já a letra dele, além de não ser linda era muito difícil de ler […]» (Dinah Silveira de Queiroz, A Muralha. 1954)

(5) «O líder da JS, Sérgio Sousa Pinto, autor da proposta, discorda frontalmente da realização do referendo. Com o argumento de que «uma questão que deve ser resolvida entre a mulher e a sua consciência» não deve ser interposta pela «legitimidade democrática». Já Francisco Assis considera que o compromisso assumido caducou, uma vez que a proposta a apresentar em Dezembro não é rigorosamente a mesma […]» (Jornal Expresso, “Apesar das promessas do 1º-ministro”, 01-11- 97)

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