DÚVIDAS

Imagem e oração relativa

Venho, por este meio, solicitar a sua ajuda. A cena final do ato lI, entre Frei Jorge e o romeiro, é a do reconhecimento, tal como acontecia na tragédia clássica. O retrato de D. João de Portugal deixa de ser apenas uma ameaça e passa a ser uma espécie de espelho do passado; ele representa quem agora está tão diferente que é necessário um gesto de identificação: quando Frei Jorge pergunta «Romeiro, romeiro, quem és tu?», o movimento de apontar para o retrato completa a palavra: «Ninguém!». Aquela simples palavra abre caminho à catástrofe. Não sendo reconhecido pela mulher com quem casou, D. João de Portugal fica limitado à imagem que um retrato fixou. REIS, Carlos, 2016. Frei Luís de Sousa. Almeida Garrett. Porto: Porto Editora (pp. 37-38) (Exercício do manual) A dúvida surgiu na identificação da função sintática de «que um retrato fixou». Sendo uma oração adjetiva relativa restritiva, desempenha a função sintática de modificador restritivo do nome. No entanto, «retrato» é um nome icónico. Haverá outra explicação? A oração não é adjetiva relativa?

Resposta

No segmento de frase transcrito em (1), a oração «que um retrato fixou» desempenha a função de modificador do nome apositivo.

(1) «[…] D. João de Portugal fica limitado à imagem que um retrato fixou

O constituinte «que um retrato fixou» constitui uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva que incide sobre o nome imagem. Ora, atendendo a que imagem é um nome dependente, ou seja, constrói-se com complemento, coloca-se a questão de saber se a oração relativa não poderia preencher o espaço sintático do completo do nome. Neste caso, assim não acontece, o que se fica a dever ao facto de imagem ser um nome icónico. Tal significa que o seu complemento deverá, do ponto de vista semântico, indicar a natureza da imagem (quem ou que é representado, por exemplo). Não é esta a natureza semântica da oração relativa, que apenas incide sobre o nome no sentido de restringir o seu sentido, modificando-o.

Acrescente-se que, embora os nomes dependentes peçam um argumento que complete o seu sentido, poderão ser usados sem esse complemento. A consequência semântica de tal opção resulta no facto de a significação do nome permanecer mais generalista. No entanto, esta ausência do complemento do nome não gera agramaticalidade. Por essa razão, a frase apresentada mantém a sua correção apesar de o complemento do nome não ser explicitado.

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