DÚVIDAS

Contexto, enunciado e modalidade

Antes de mais, congratulo-vos por este projeto.

Gostaria que me esclarecessem quanto à modalidade e ao respetivo valor das frases abaixo, uma vez que não me parecem veicular uma ideia de obrigação, mas antes de certeza e de convicção do locutor. Ainda assim, na segunda afirmação, poderá transparecer um dever de consciência cultural, isto é, uma obrigação moral de respeito pelo legado literário de Almeida Garrett.

1.ª «É como não podermos fazer terra plana ali em Belém sobre a Torre de Belém»;

2.ª «[Há assim uns marcos da chamada escrita para teatro em português] mas não podemos pôr de fora Almeida Garrett».

Muito obrigada pela vossa disponibilidade.

Resposta

A identificação da modalidade veiculada por um determinado enunciado pode beneficiar da análise do contexto em que ele surge. Neste caso particular, o contexto dá um auxílio importante. Assim, os segmentos apresentados pela consulente são retiradas da reportagem intitulada «“Frei Luís de Sousa” regressa ao Teatro D. Maria ao fim de 20 anos» (Expresso, 27 de fevereiro de 2019). 

Comecemos por recordar que a modalidade está relacionada com a forma como o locutor se posiciona perante aquilo que diz. Neste âmbito, a modalidade epistémica está relacionada com a forma como o locutor semiotiza o seu enunciado do ponto de vista da sua condição de verdade, apresentando o seu conteúdo como verdadeiro, provável ou possível. Já a modalidade deôntica permite expressar uma atitude relativamente ao mundo por meio da qual se veicula uma obrigação ou permissão, de acordo com determinadas normas.

Observemos, então, o contexto dos enunciados em questão [sublinhamos os enunciados em análise]:

(1) «Há o Gil Vicente, há Bernardo Santareno... Há assim uns marcos da chamada escrita para teatro em português, mas não podemos pôr de fora Almeida Garrett", referiu. "É como não podermos fazer terra plana ali em Belém sobre a Torre de Belém. Ela está lá sempre.» «“Frei Luís de Sousa” regressa ao Teatro D. Maria ao fim de 20 anos» (Expresso, 27 de fevereiro de 2019).

No plano da relação dos enunciados destacados, percebemos que o locutor estabelece uma comparação entre duas realidades com a intenção de veicular uma carga de dever social que o apresenta como moral vigente que se impõe a ele e a toda a sociedade. De acordo com esta interpretação, os enunciados veiculam ambos a modalidade deôntica com valor de obrigação, o que é confirmado pela presença do verbo modal poder. Faz também sentido que ambos os enunciados veiculem a mesma modalidade, uma vez que o locutor estabelece entre eles um paralelo comparativo que tem como objetivo reforçar a inevitabilidade da obrigação moral expressa no primeiro enunciado. Note-se, por fim, que os enunciados em questão não parecem ser apresentados com o objetivo de apresentar o conteúdo da frase como verdadeiro, pelo que não se veicula a modalidade epistémica.

Disponha sempre!

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